Crise é 'momento ótimo' para Dilma, avalia economista

Para Márcio Pochmann, situação política atual do governo pode forçar presidente a reagir com medidas mais arrojadas

RICARDO GALHARDO, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2015 | 02h02

Com uma visão "não negativa" da situação política atual, o economista petista Márcio Pochmann acredita que os acontecimentos recentes podem levar a presidente Dilma Rousseff ao "momento ótimo de uma crise". Ou seja, a adversidade pode forçar Dilma a reagir com medidas mais arrojadas do que as mostradas até aqui. No linguajar popular, "fazer dos limões uma limonada".

Como o senhor classifica o momento político atual?

Estamos vivendo aquilo que os historiadores chamam de momento crítico, que é a capacidade de formar uma nova maioria capaz de realizar as transformações que a sociedade espera. Numa leitura não negativa, acredito que estamos caminhando para o ponto ótimo de uma crise, em que a presidência, o PT como partido majoritário e também os partidos da coalizão tomarão uma decisão pela qual não esperamos.

Uma crise pode ser ótima?

Olhando numa perspectiva histórica, toda vez que as propostas progressistas tiveram a iniciativa e o protagonismo, os resultados no Brasil não foram tão interessantes. A Coluna Prestes, em 1926, por exemplo, ao fim e ao cabo resultou em que mesmo? A Aliança Nacional Libertadora, em 1935, também foi frustrante. Historicamente os esquerdistas quando ameaçados, reagem. E as reações costumam ser melhores do que as iniciativas de protagonismo. Getúlio (Vargas), que sofreu uma ação em 1932, a partir do movimento em São Paulo, reagiu e passou a ter uma direção. Juscelino Kubitschek assumiu sem ter maioria no Congresso e foi construir uma aliança política nova fora dos parâmetros da época, construiu Brasília, criou o plano de metas, formou novos atores políticos.

Isso vale para o governo Lula?

Se não fosse o mensalão não sei se teria o segundo mandato do Lula. As iniciativas tomadas com a saída do (Antonio) Palocci, a implantação do PAC, a aposta no crescimento da economia foram uma reação ao mensalão.

E como isso se aplica à Dilma?

A presidenta Dilma pode estar sendo levada a ter que tomar decisões que exigiriam a formação de uma maioria diferente daquela que decidiu as eleições. Teria que enfrentar dois problemas estruturais que vêm desde a ditadura e nunca foram enfrentados. O primeiro é a relação do Estado com o mercado, evidenciado na Petrobrás. O segundo é o esgotamento deste modelo político que foi criado pelo Golbery (do Couto e Silva, chefe da Casa Civil entre 1974 e 1981).

Como ela está reagindo?

Eu diria que, historicamente, Dilma está hoje entre duas opções: Afonso Pena (presidente entre 1906 e 1909) e Juscelino. Afonso Pena era um liberal, que fez algo que não gostaria. Ele utilizou o Estado para fortalecer um esteio da economia nacional, o café. É parecido com Dilma optar por fazer uma articulação com o setor produtivo. É o que ela faz com a desvalorização cambial que tem o claro objetivo de fortalecer a indústria. Não é uma medida só econômica. É política.

E o momento ótimo da crise?

Se isso não der certo ela vai ter que construir uma nova agenda que não seria mais proteger o sistema produtivo. Ela vai fazer uma aliança nova em cima dessa nova agenda. Desde junho de 2013, existe uma agenda pela melhora dos serviços de saúde, educação. Isso ainda não está organizado, não tem atores, mas você pode construir atores novos.

O momento crítico afeta o PT?

O PT montou um projeto para aproveitar o momento internacional, os fluxos comerciais e financeiros em alta. A gente aproveitou bem e colou isso com a expansão econômica com distribuição de renda, algo que não acontecia há 50 anos. Então veio a crise de 2008 e o governo Lula transformou o PAC, que seria um bloco de investimentos, em uma série de políticas anticíclicas imaginando que aquilo sustentaria o Brasil durante a crise. O problema é que a crise de 2008 não foi superada. Ela estabeleceu um novo regime de crescimento global. É só comparar o crescimento dos países relevantes antes e depois de 2008. Todos crescem menos.

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