Crise do grampo acirra disputa entre PF e Abin

Para Tarso, escuta clandestina pode ter sido feita por arapongas e agência ?não poderá sonegar informação?

Vera Rosa e Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2008 | 00h00

A crise da escuta clandestina nos telefones do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, acirrou a disputa entre a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O ministro da Justiça, Tarso Genro, admitiu ontem que o grampo pode ter sido feito ilegalmente por arapongas da Abin e assumiu a defesa da Polícia Federal. Tarso foi duro em relação à Abin: disse que a agência "não poderá sonegar informação" no inquérito sobre o grampo, sob pena de ficar com a pecha da espionagem. O escândalo resultou no afastamento temporário do diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, e seus subordinados.Tarso reconheceu a possibilidade de os grampos nos telefones de Mendes terem sido feitos no rastro da Operação Satiagraha, que em julho alvejou o banqueiro Daniel Dantas, preso duas vezes. "É uma linha de investigação não excluída", disse ao responder a uma pergunta sobre a possível conexão entre os fatos. "Pode ser alguém que tenha ou teve vínculos com a Abin e que não necessariamente tenha agido a mando da direção."Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva suspeitam que Mendes tenha sido alvo de espionagem por mandar soltar Dantas duas vezes. Agentes da Abin ligados a Lacerda e ao delegado Protógenes Queiroz, que comandou a Operação Satiagraha e foi afastado do caso, estariam desconfiados da proximidade entre Dantas e o presidente do STF. Na época, a Abin entrou na operação à revelia do diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa.Tarso reafirmou que o inquérito da Satiagraha teve problemas, por causa da "espetacularização" das prisões, mas não quis responsabilizar Lacerda - definido por ele como "homem sério" - pelas interceptações telefônicas. "Queremos reorganizar as relações da Abin com a PF para que sejam totalmente formais e explicitem o nível de colaboração. A Abin, por exemplo, não pode fazer interceptação nem investigações", insistiu o ministro.REAÇÃOEm conversas com assessores, Lacerda rejeitou ontem a suspeição levantada sobre a Abin por Tarso e pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. Para Lacerda, "a investigação central sobre o grampo deve ser feita no Senado e na empresa que faz a assistência técnica dos serviços de telefonia da Casa".Ele chegou a dizer que um grampo no STF, feito por um agente da Abin e a serviço de um delegado, "seria uma insanidade, um caso de internação". "Protógenes é tecnicamente qualificado e, críticas à parte por eventuais deficiências, jamais cometeria tamanho amadorismo."Sobre o inquérito da PF, Lacerda disse estar mais preocupado em provar sua inocência do que em retomar o cargo. Afastado do comando da agência, ele se considera vítima de uma pressão que juntou Jobim, os senadores, o presidente do Supremo "e outras pessoas contrariadas".Ontem, sempre defendendo a PF de participação no monitoramento de Mendes - que teve diálogo com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) revelado pela revista Veja -, Tarso cobrou a colaboração da Abin no inquérito que investigará o grampo. "Num inquérito da PF não pode a Abin sonegar informação, senão a agência estaria protegendo alguém que cometeu delito gravíssimo", observou. Logo depois, adotou tom mais cauteloso e disse partir do "princípio da boa-fé" para se referir às ações da Abin.Questionado pelos repórteres se não poderia ser surpreendido com a revelação de um policial federal envolvido na bisbilhotagem, Tarso foi enfático. "Se tiver, é um traidor da corporação."

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