Crise do dossiê abre guerra de CPIs

Planalto foca comissão mista, na qual pode constranger tucanos; oposição quer ir para o Senado, onde é mais forte

Eugênia Lopes, O Estadao de S.Paulo

05 de abril de 2008 | 00h00

Enquanto o Palácio do Planalto diz que vai investigar o vazamento do dossiê com informações sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a fragilidade das explicações dadas pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, anteontem, reforçou a tendência de abertura de uma comissão parlamentar de inquérito exclusiva no Senado para investigar o caso. É o que pretendem os parlamentares da oposição.Na base governista, a orientação é de explorar ao máximo a CPI mista, de deputados e senadores, onde contam com o dobro de votos da oposição, e constranger ex-ministros do governo FHC (1995-2002) em relação a gastos efetuados por suprimento de fundos (despesas diárias urgentes ou extraordinárias, realizadas sem licitação), que inclui pagamentos feitos pelos cartões corporativos.Na avaliação dos oposicionistas, em uma CPI só do Senado, as chances de obtenção dos gastos da Presidência são maiores. A oposição não quer abandonar a CPI integrada, mas pretende deixá-la morrer aos poucos. "Ela vai morrer de inanição porque não quer investigar nada", resume o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN)."Vamos cumprir o ritual: deixar a CPI mista correr, mas ao mesmo tempo fazer a comissão só do Senado funcionar a pleno vapor", promete o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM). EQUILÍBRIONo Senado, a correlação de forças entre governo e oposição é mais equilibrada, apesar de a base aliada ter a maioria dos votos. Daí, a expectativa dos senadores com a criação de uma comissão exclusiva."É mais fácil virar o voto de um senador do governo. Os senadores são muito mais preocupados com a opinião pública do que os deputados", argumenta Agripino. Autor do requerimento de abertura da CPI mista, contudo, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) considerou "inoportuna" a criação de uma comissão restrita ao Senado. "A CPI só do Senado não é um instrumento para ter mais êxito do que uma CPI mista. Não faz diferença perder por 14 votos a 7, como é o caso da CPI mista, e perder de 6 votos a 5, como é em uma comissão só do Senado", conclui Sampaio. PENTE-FINOEnquanto a oposição busca meios de viabilizar uma nova comissão composta só por senadores, a estratégia da base aliada no Congresso é passar um pente-fino, por ordem cronológica, nos documentos que estão chegando à CPI mista com os gastos de cartões corporativos e contas tipo B (em que a despesa é justificada por nota fiscal depois de o servidor receber uma verba). "Temos de começar a olhar esses documentos por ordem cronológica, a partir de 1998", explica o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). "Vamos auditar os documentos e, se houver alguma irregularidade, vamos convocar o envolvido. O que for considerado gasto irregular terá de ser devolvido para os cofres públicos."Seria o caso, por exemplo, do ex-ministro da Reforma Agrária Raul Jungmann, que, em 51 meses, gastou R$ 15.691,61 em alimentação, na maioria das vezes em restaurantes e supermercados de Brasília. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), a legislação proíbe o uso de recursos de suprimento de fundos para despesas com comida em Brasília. A expectativa é de que ao longo da semana o Ministério do Planejamento envie à CPI documentos para dar munição à base aliada.Os governistas acreditam que a oposição terá muito mais a perder com a análise dessa papelada. Para eles, as irregularidades em contas do atual governo já foram exploradas e dificilmente aparecerão "casos exóticos", como a compra de uma tapioca de R$ 8,30 com cartão corporativo, feita pelo ministro do Esporte, Orlando Silva.

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