Wilson Pedrosa/AE
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Crise derruba Palocci e obriga Dilma a mudar governo

Sem apoio na base e com silêncio da presidente, ministro negociou saída da Casa Civil alegando que sua permanência custaria 'a continuidade do embate político'; Gleisi Hoffmann assume

João Domingos e Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2011 | 23h05

BRASÍLIA - Vinte e três dias depois de provocar a maior crise política no governo de Dilma Rousseff por causa das suspeitas de enriquecimento ilícito e tráfico de influência a partir da revelação de um significativo aumento patrimonial nos últimos quatro anos, Antonio Palocci pediu nesta terça-feira, 7, demissão da Casa Civil. Ele será substituído pela senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que toma posse nesta quarta-feira, 8, às 17 horas, no Palácio do Planalto.

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Técnica especializada em orçamento e política, Gleisi é um antigo quadro do PT. Apesar de a crise envolvendo Palocci ter exposto a fragilidade da articulação política do governo, a senadora do PT deve exercer no governo um papel gerencial, semelhante ao que a presidente teve no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - uma espécie de "Dilma da Dilma". Numa entrevista na noite desta terça-feira, 7, logo depois de ter sido escolhida, Gleisi Hoffmann disse que Dilma a considera com um perfil para o que quer na Casa Civil: trabalho de gestão e de acompanhamento de projetos.

 

Desintegração. Mesmo obtendo um "nada consta" na segunda-feira do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que mandou arquivar todas as acusações que lhe foram feitas pelos partidos de oposição, Palocci não resistiu ao processo de desintegração de seu capital político diante do cerco de aliados.

 

O destino de Palocci foi selado nesta terça pela manhã, no gabinete de Dilma Rousseff, no terceiro andar do Palácio do Planalto. Numa conversa de 50 minutos, que começou às 10h55, os dois acertaram a saída. A conversa acabou por atrasar o início da cerimônia Rio+20, que Dilma iria presidir. Os dois chegaram juntos à solenidade. Palocci já estava fora, mas esbanjou sorrisos. Ele ainda participou da um almoço com a presidente e os senadores do PTB, no Palácio da Alvorada.

 

Despedida. No final da tarde desta terça Palocci, o mais poderoso ministro do governo de Dilma Rousseff, entregou a carta de demissão. Disse que considerou "robusta" a manifestação do procurador-geral da República o que, segundo ele, confirmou a "retidão de suas atividades profissionais no período recente, bem como a inexistência de qualquer fundamento, ainda que mínimo, nas alegações apresentadas sobre sua conduta".

 

No final da curta nota, Palocci disse que preferiu solicitar o afastamento por considerar que "a continuidade do embate político poderia prejudicar suas atribuições no governo". A nota de demissão foi protocolar, destas que costumam ser escritas quando um importante ministro sai.

 

Sem mandato de deputado federal, Antonio Palocci ficará longe da cena política por algum tempo.

 

Dilma, a esfinge. Palocci ficou desprestigiado nos últimos dias. Logo depois do parecer do procurador-geral, que o inocentou, ele esperava uma afirmação de apoio por parte da presidente. Mas esta não veio. Palocci disse a parlamentares com os quais esteve durante o dia desta terça que não conseguiu desvendar a "esfinge" que é Dilma.

 

Em nenhum momento a presidente deixou claro se queria que ele continuasse no cargo ou saísse. Entendeu que era para sair.

 

Na segunda-feira à noite, logo depois do parecer do procurador, os líderes do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), reuniram-se com Palocci. Este disse a eles que estava disposto a ir ao Congresso dar explicações sobre o aumento de seu patrimônio em 20 vezes em quatro anos, fortuna que teria vindo do trabalho de consultoria feito de 2006 a 2010 para cerca de 25 empresas, e que lhe teria rendido R$ 20 milhões.

 

Vaccarezza e Henrique Alves levaram a proposta de Palocci à Câmara e começaram a negociá-las em seus partidos e a sondar como a oposição reagiria. Quando a notícia da saída de Palocci chegou à Câmara, eles estavam negociando a ida do agora ex-ministro ao Congresso, para prestar esclarecimentos. Mas muito antes de todas essas negociações Palocci já havia se afastado.

 

Enquanto Palocci tentava ganhar fôlego na base aliada na esperança de se manter no cargo, o Planalto, nesta terça cedo, já emitia sinais para a senadora Gleisi Hoffmann ficar de sobreaviso.

 

Distante. Dilma também divulgou nota para anunciar a saída de Palocci. Disse que recebeu dele uma carta com o pedido de demissão, que a aceitou e que lamentou "a perda de tão importante colaborador". Destacou a "valiosa participação" de Palocci no governo e agradeceu aos "inestimáveis serviços que prestou ao governo e ao País." Foi uma nota sem emoção, distante.

 

Entre os parlamentares do PT que defendiam Palocci e que anunciavam agora a disposição de defendê-lo, ficava sempre uma pergunta: como explicar para a sociedade que alguém tenha acumulado em quatro anos uma fortuna de mais R$ 20 milhões e tenha comprado um apartamento avaliado em R$ 6,6 milhões? Aos jornalistas que faziam plantão no Palácio do Alvorada acompanhando os rumores do dia, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria da Presidência) deu uma resposta: "A permanência dele (Palocci) depende da presidente". E Dilma preferiu mudar.

 

 

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