Celso Junior/AE
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'Crise de Sarney é uma crise do Renan também', diz analista

Para Leonardo Barreto, muitas acusações que atingem o presidente do Senado são endereçadas ao seu aliado

Andréia Sadi, do estadao.com.br,

21 de julho de 2009 | 12h36

A crise que atinge José Sarney (PMDB-AP) é também uma crise de Renan Calheiros (PMDB-AL), líder do PMDB, ex-presidente do Senado e principal articulador da candidatura que elegeu o atual presidente da Casa ao posto, segundo análise do cientista político Leonardo Barreto, da UnB, ao estadao.com.br. "Eu até acho que muita coisa que está sendo dita, espalhada, esse conflito (do Sarney) está acontecendo para atingir o Renan. Tem muita flecha que está endereçada a ele".

 

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Considerado o braço direito de Sarney, Renan também foi alvo de acusações quando na presidência do Senado, em 2007, e deixou o cargo após uma série de denúncias, entre elas, a de que teria despesas pessoais pagas por um lobista. Para o especialista, no entanto, o confronto com o Renan foi mais violento do que o próprio confronto com o Sarney.

 

"São estilos diferentes. Renan prioriza o confronto, ele é um cara de confronto. E o Sarney tem natureza muita conciliatória. Ele é benquisto pela maioria dos senadores, esse confronto do Sarney é menos belicoso que o do Renan", disse.

 

Em fevereiro deste ano, Renan Calheiros trabalhou pela terceira presidência de Sarney no Senado, que teve como adversário o petista Tião Viana (AC). Para Barreto, a atual crise de Sarney é um "prolongamento desta briga" que levou o petista à derrota. "Tem um pouquinho aí de Renan Calheiros e Tião Viana", afirmou.

 

Abaixo, confira os principais trechos da entrevista:

 

Na sua opinião, o que exatamente segura o presidente do Senado na cadeira?

 

Primeiro, eu acho que o lastro político dele, estamos falando de um ex-presidente da República. Segundo, a capacidade de articulação que o presidente Sarney tem dentro do Congresso, ele tem uma longa história dentro do Senado , laços estreitos com os senadores e isso pesa. Terceiro, ele tem o apoio do Planalto. São essas três coisas.

 

Renan caiu, em 2007, quando perdeu o apoio do PT, após ser absolvido em plenário. Neste caso, é possível dizer que o PT vira o fiel da balança, no caso de Sarney também?

 

Acho que sim, você tem razão. Não tinha pensado desta maneira, mas o momento chave da crise do Sarney foi a conversa que ele teve com Mercadante (líder do partido) e a reunião do PT com o Planalto, com o presidente Lula. Porque o DEM e PSDB já tinham ido (abandonado o apoio a Sarney), PMDB parte já foi, sempre é um partido dividido, então a única base coesa são os senadores do PT. Sem ele, a bancada do PT, Sarney não aguentaria.

 

 

Defender Sarney, assim como defender Renan, é uma conta alta para os parlamentares perante à sociedade. A opinião pública não está pesando?

 

Ninguém sabe quão caro vai sair esta fatura. Por enquanto, o que o Lula deseja é apoio do PMDB à candidatura Dilma. Quanto vale isso? Na minha opinião, a importância do PMDB para a Dilma é o tempo de TV, que é no que ele (Lula) está pensando. Porque o resto ele vai receber tudo rachado. Até onde isso vai? A opinião pública conta sim, é quem vai dizer o preço desta fatura.

 

Acho que não vai até as ultimas consequências. Existe um ponto limite, que é quando fica tão desgastante defender o presidente do Senado e outro ponto, quando Lula vir que Sarney está enfraquecido dentro do próprio partido. Quando ele vir que não vale a pena, que esse apoio do PMDB ao Sarney não tem condições.

 

É que também não há outra pessoa como Sarney dentro do PMDB. Quando se falou na saída de Sarney, novamente falou-se em Garibaldi (para assumir o cargo. Garibaldi substituiu Renan quando ele se licenciou do cargo, em outubro de 2007).

 

Renan já foi um Sarney dentro do Senado?

 

São estilos diferentes. Renan prioriza o confronto, ele é um cara de confronto. E o Sarney tem natureza muita conciliatória. Ele é benquisto pela maioria dos senadores, esse confronto do Sarney é menos belicoso que o do Renan. Eu até acho que muita coisa que está sendo dita, espalhada, esse conflito está acontecendo para atingir o Renan. Tem muita flecha que está endereçada a ele.

 

Mas por que menos belicoso?

 

Porque o Sarney, de uma maneira ou outra, tem capacidade de negociação, conciliação. Renan tinha oposição muito nítida ao seu posicionamento, a sua sanha de poder. Renan é figura muito mais combativa que Sarney. Eu acho que o confronto com o Renan foi mais violento do que o próprio confronto com o Sarney. Renan caiu porque, enfim, houve a denúncia que um lobista pagava pensão para a filha dele. Se formos levar em conta, Sarney tem acusações muito mais graves.

 

Quando Renan deixou a presidência, contabilizam seis denúncias contra ele. Sarney já é alvo de quatro. Qual seria a ruptura que levaria Sarney a deixar o cargo?

 

Primeiro, quando os senadores disserem, 'não pago mais essa fatura'. E a segunda, seria o Planalto abandonar o presidente do Senado, quando perceber que a fatura está cara demais ou quando perceber que Sarney já não tem tanto poder dentro do PMDB.

 

 

Você falou que muito do que está acontecendo é para atingir Renan. Por quê?

 

Ele é o cara por trás do Sarney. O Renan tem mágoa pessoal de alguns senadores, entre eles o Tião Viana (PT-AC) porque acha que ele foi desleal, o Tião era o vice dele, quando Renan se licenciou, e antes de se licenciar, Tião demitiu toda diretoria da Presidência (quando Tião assumiu interinamente no lugar de Renan). Enfim, são inimigos pessoais. O Tião Viana estava com a candidatura pronta, e o Renan foi o cara por trás das cortinas que articulou a candidatura de Sarney, que conversou com todo mundo, fez a campanha, enfim, era comum ver Sarney e Renan do lado um do outro, todo orgulhoso, ele voltou a ser o grande interlocutor do PMDB dentro do Senado.

 

Foi a forma que Renan encontrou de se vingar de Viana e dar a volta por cima. E me parece que esse processo, que é gerado, dizem, pelo próprio Tião, é o prolongamento desta briga. Até no discurso de defesa de Sarney diz que ele é vítima desta disputa eleitoral, que ainda não acabou. Tem um pouquinho aí (na atual crise) de Renan Calheiros e Tião Viana.

 

A crise de Sarney é uma crise do Renan também?

Certamente, certamente.

 

E da instituição?

Ah sim, uma crise da instituição também. Porque é aquela historia, é impressionante, você pega os últimos 15 anos e o ACM não chega a renunciar , mas depois quando senador. Jader renuncia, Renan renuncia e agora estamos na iminência de Sarney renunciar. Então é assim, tem alguma coisa errada com a instituição.

 

Sarney não joga a toalha?

Eu não sei. Depende muito do trabalho da opinião pública, imprensa.

 

Não é carta fora do trabalho, ele sair?

 

Ele não pode se licenciar porque o vice é o Marconi Perillo e acontece uma coisa engraçada que nem o PSDB quer o Marconi na presidência.

 

Para o governo, seria muito ruim a licença. Sarney está jogando um jogo de tudo ou nada, ou ele fica até o final ou ele renuncia.

 

Licença você descarta?

 

Descarto. Ou ele renuncia ou ele se segura. Ele está brincando de joguinho de tudo ou nada.

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