Crianças se prostituem nas ruas de Brasília

A primeira ordem expressa do presidente Luiz Inácio Lula daSilva ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, na reuniãoministerial da última sexta-feira foi combater a exploração sexual de crianças e adolescentes nos rincões do Norte e Nordeste. Mas o governo não precisa ir longe para começar a atacar o problema. A 1,7 km do gabinete do ministro e a 2 km da rampa do Palácio do Planalto, meninas se prostituem e enfrentam o mundo das drogas e da violência.Não há número preciso de adolescentes na prostituição em Brasília. A gerente do SOS Criança, Ivanda de Souza Silva, calcula que 130 meninos e meninas, incluindo as que se prostituem, vivem nas ruas do Plano Piloto. Ela estima que 95% desses menores são usuários de drogas. Por enquanto, as meninas estão na pista S2 e na parte superior do viaduto da catedral, ao lado da Esplanada dos Ministérios, mas sua presença jáincomoda as profissionais mais antigas."O problema é que essas garotas querem subir mais e chegar ao Setor Comercial para cobrar R$ 5 por programa e R$ 10 sem camisinha", reclama uma das prostitutas que atuam há mais tempo na área. "Assim não dá, a gente trabalha com preço de tabela (R$ 20 o programa) e essas meninas aceitam qualquer coisa para comprar droga", explicou outra prostituta. "É um dinheiro sujo mesmo", disse S, que mora em Planaltina de Goiás, cidade da Região de Entorno do Distrito Federal, a 50 km do PlanoPiloto. Por noite, "S" fatura R$ 50. A amiga "D" mora no Recanto das Emas, uma das favelas da capital. O pai de D foi morto a facadas há alguns anos. A mãe, que veio de Pernambuco na década de 80, está desempregada. Com o dinheiro que ganha na Esplanada, "D" está pagando um lote que a mãe comprou no Lago Azul, na periferia de Brasília.A merla, um subproduto da cocaína em forma de pasta, é a droga mais consumida pelos jovens da capital segundo estudo feito no final do ano passado pela Unesco. "R", de 15 anos, afirma que não consegue ficar um dia sem fumar merla, comprada com dinheiro da prostituição.A entrada das menores no mercado do sexo levou um grupo de psicólogos e educadores de Brasília há três meses a desenvolver um trabalho inovador de atendimento às adolescentes. Eles pretendem romper a velha política de maquiar o problema retirando à força as meninas das ruas do centro. Um dos cinco integrantes do grupo "Oficina de Caminhos", do SOS Criança, o psicólogo Bruno Moraes diz que a repressão policial só transfere o problema para a periferia.Com sede numa pequena sala do Conic, um centro comercial decadente que virou ponto de prostituição, o grupo já conseguiu estabelecer laços de confiança com pelo menos 14 menores que atuam no centro da cidade. Os psicólogos buscam quebrar preconceitos da sociedade e ganhar a confiança das menores. "Quero que elas me vejam como pessoa capaz de ajudá-las", diz Bruno Moraes.Há poucas semanas, a educadora social Glícia Félix ficou emocionada quando quatro menores, por vontade própria, entraram pela primeira vez na sala do grupo para convidar os "tios" e "tias" para uma festa no Parque da Cidade. "Dizem que a capital é a última a ser tomada, e quando isso ocorre é porque o País foi para o lixo; mas não é bem assim, Brasília ainda é uma cidade com solução", diz Glícia.Segundo Ivanda de Souza Silva, geralmente, as adolescentes dascidades-satélites vão para o Plano Piloto por conta própria. A falta de oportunidades de ocupação é um dos obstáculos para convencer as menores a deixarem as ruas. "Elas saem da prostituição, mas dias depois têm uma recaída e voltam", afirma.

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