Crianças de favelas de áreas ricas vão pior na escola, diz estudo

Criança que mora em favela de bairro popular tem 47% mais chance de repetir contra 59% em entorno rico

Carolina Glycerio, BBC

15 de outubro de 2007 | 06h35

Crianças que estudam em favelas de bairros ricos no Rio de Janeiro têm um desempenho pior na escola do que aquelas que vivem em favelas situadas em bairros que destoam menos da sua realidade social, indica um estudo de pesquisadores cariocas.Coordenado por Luiz César Queiroz Ribeiro, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Creso Franco, do Departamento de Educação da PUC do Rio, o trabalho será publicado na revista da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina (Cepal).Os autores mostram no estudo que os riscos de reprovação e evasão escolar aumentam quando a criança mora numa favela localizada em bairro abastado, não só em relação às crianças que não estão em favelas, como em relação às que moram em favelas de bairros populares. "Não só morar na favela é uma desvantagem (no desempenho escolar), como morar numa favela na parte rica da cidade é uma desvantagem ainda maior", afirma Luiz César Ribeiro, que também dirige o Observatório das Metrópoles, centro de estudos ligado à UFRJ e voltado para os impactos da desigualdade social."O resultado é surpreendente porque a localização (de uma favela) em uma área rica é valorizada por estar associada com determinadas vantagens, como acesso a emprego e renda, acesso a benefícios urbanos, etc", diz o pesquisador. "O que é uma vantagem no caso da escolaridade parece ser uma desvantagem", conclui.No caso da evasão escolar, os dados analisados pelos pesquisadores indicam que o risco de moradores de favelas situadas no entorno de regiões abastadas e ao redor de bairros populares são, respectivamente, 74% e 57% maiores do que o risco de evasão para quem não mora na favela. Ribeiro, Franco e Fátima Alves, pesquisadora da UFRJ que também participou do trabalho, analisaram dados do Censo de 2000 relativos a crianças e jovens de 7 a 17 anos, com o objetivo de avaliar o risco de atraso escolar para alunos de 4ª a 8ª séries em função de "atributos individuais, condições sócio-educativas familiares e do contexto social da localização residencial". De acordo com Ribeiro, a influência do contexto socioeconômico no desempenho das crianças já é conhecida, mas este é o primeiro trabalho que se volta para a importância do bairro nesse contexto, em vez do tradicional enfoque na família.Foram analisados gênero, cor, renda média, escolaridade da mãe, localização da favela (entorno popular ou abastado) na defasagem idade/série e na evasão escolar.Os pesquisadores utilizaram uma escala de 0 a 1. "Quanto mais próximo de 1, mais explica o impacto. Quanto menor de 1, maior a proteção", explica Ribeiro. Um dos modelos propostos para alunos de 8ª série mostra que um menino negro tem 0,26 mais chances de estar defasado em um ano na escola do que um aluno branco que não mora na favela. Quando se analisou o peso de morar numa favela de bairro popular no risco de uma criança estar atrasada na escola, o resultado foi 1,47 (ou seja, uma criança que mora nessa favela tem 47% mais chance de repetir de ano); quando se analisou o impacto de morar numa favela de área rica, o índice subiu para 1,59. "Isso significa que o risco para jovens moradores em favelas próximas a bairros abastados e a vizinhas a bairros populares é, respectivamente, 59% e 47% maior do que o risco de jovens moradores fora de favelas", diz o estudo.Uma das hipóteses cogitadas no trabalho se baseia na constatação de que as escolas públicas de bairros abastados são quase que exclusivamente freqüentadas por crianças pobres, que moram nas favelas da região, já que as famílias de fora da favela tendem a enviar seus filhos para colégios particulares."O mundo social da criança fica pouco diversificado, pouco estimulante", diz o pesquisador.Além disso, o aluno fica mais sujeito aos apelos do consumo que o rodeia e mais exposto a oportunidades de trabalho, que parecem mais atraentes do que a escola."À medida que (a escola pública de área rica) proporciona o acesso ao consumo ostensivo acaba estimulando o jovem a buscar muito precocemente a busca desse consumo."Por outro lado, crianças que moram em bairros de entornos populares tendem a encontrar nas escolas públicas que freqüentam colegas de classe média pobre, que moram fora da favela. Esse contato, segundo Ribeiro, parece ser saudável para as crianças.Como possível solução, o pesquisador propõe atrair a classe média para áreas hoje só freqüentadas pela população pobre e criar um sistema de "vales" que permita que as famílias que moram em favelas possam colocar seus filhos em escolas fora da sua comunidade imediata.Ribeiro lembra que os serviços sociais tendem a melhorar nos lugares onde a classe média está presente.Os pesquisadores vão conduzir estudos semelhantes em São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Natal e Goiânia.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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