Assessoria de Imprensa/Reprodução
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'Criador’ do Tocantins assume vaga no Senado e defende novos Estados: 'ideal é 50'

Suplente de Eduardo Gomes, agora licenciado, ‘Siqueirão’, que tem 91 anos, resgata bandeira da criação de Estados

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2019 | 05h00

Correções: 23/07/2019 | 16h39

Se dependesse de José Wilson Siqueira Campos, o Siqueirão, um homem de pouco mais de um metro e meio de altura, que completa 91 anos no próximo mês, a bandeira brasileira teria 50 estrelas. O político que fez greve de fome na Constituinte de 1988 para forçar o desmembramento do norte de Goiás e se tornou quatro vezes governador do Tocantins, assumiu, na semana passada, uma cadeira no Senado com um discurso em defesa de novos estados. Ele entra na vaga como suplente do titular Eduardo Gomes (MDB), que se licenciou num acordo político para uma homenagem a um dos últimos coronéis da era desenvolvimentista.

O discurso de posse na terça-feira de Siqueira Campos foi assistido por representantes da “nova política”, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). “Nós temos que criar no mínimo mais, para ser razoável, três Estados, para fazermos 30”. Pregou o mais velho político em atividade no plenário da casa. “É pouco, é pouco! Agora, o ideal é ter 50 Estados.

Pelo acordo, Eduardo Gomes irá ocupar por alguns meses uma secretaria no governo do Tocantins, administrado por Mauro Carlesse, do DEM. Siqueira Campos vai faturar R$ 33 mil por ajuda de custo para assumir o mandato e o mesmo valor a cada mês que durar a homenagem, valor correspondente ao salário de um senador.

Foi com ajuda de enfermeiros que Siqueira Campos circulou pelo Senado. Nos últimos anos, passou por tratamento de câncer e diverticulite. A homenagem foi quase ecumênica. “Vou aprender com ele”, disse o senador Jorge Kajuru (PSB-GO). A senadora Kátia Abreu (PDT-TO), que esteve em palanques de Siqueira Campos e contra ele, não compareceu, mas parabenizou pelo Twitter o “Siquerido do coração do Tocantins”.

Ao Estado, o ex-prefeito de Palmas Carlos Amastha, vice-presidente nacional do PSB, diz que o adversário foi “indiscutivelmente” o “grande homem” do Tocantins. “À sua tenacidade, ao seu esforço, a gente deve a criação desse Estado. O velho foi um visionário”, afirma. “Ele nunca me apoiou, mas nunca nos enfrentamos em eleição. Como todos nós, é uma figura cheia de erros, mas as qualidades superam demais.”

História

Nascido no Crato no tempo de Padre Cícero, Siqueira Campos chegou a Colinas, em Goiás, hoje Colinas do Tocantins, onde começou a vida política. Em 1965 foi eleito vereador e depois engatou cinco mandatos de deputado federal, sempre em partidos de apoio à ditadura militar (Arena, PSD e PFL) – ainda passou pelo PL e PSDB até chegar ao DEM, legenda que está filiado atualmente.

Na Câmara, colecionou polêmicas. Em 1977, liderou o GAP, o Grupo de Ação Parlamentar, formado por deputados de direita que defendia a candidatura à Presidência do então ministro do Exército, Sylvio Frota, da linha dura. Na redemocratização, trocou ataques com o senador Jarbas Passarinho, líder do PSD, a quem acusou de trair a “revolução” e pertencer ao comunismo. Passarinho respondeu que Siqueira Campos era “insignificante” e não existia na “geografia” de suas “preocupações”. Nos estertores do regime, Siqueira Campos defendeu no Colégio Eleitoral Paulo Maluf na disputa com Tancredo Neves.

A Assembleia Constituinte foi a virada. Siqueira Campos apoiou projetos e ações de Ulysses Guimarães, Humberto Lucena, Fernando Henrique Cardoso e Mario Covas em troca de assinaturas para desmembrar Goiás. “Eu ando meio adoentado agora, mas, se estivesse em minha saúde plena, eu estaria do mesmo jeito: emocionado e cheio de saudades, especialmente com uma saudade imensa de Ulysses Guimarães e Humberto Lucena”, disse, com dificuldades, mas num tom firme. “Eles foram, na realidade, os fortes que me ajudaram na luta pela criação do estado do Tocantins.”

“Siqueirismo”

Incluído na Região Norte para ganhar recursos de fundos da Amazônia, o novo Estado nasceu com 1,3 milhão de habitantes – hoje chega a 1,5 milhão, e praticamente dependente do governo federal. Virou quase uma fazenda pessoal de Siqueira Campos por mais de dez anos. Na primeira eleição, Siqueirão foi eleito governador pelo PDC num saco de partidos e entidades que juntava da União Democrática Ruralista, a UDR dos fazendeiros, ao PCdoB, legenda que organizou, nos anos 1970, a guerrilha do Araguaia na região de Xambioá, no extremo norte do novo Estado e no sudeste do Pará.

Homônimo do líder tenentista Siqueira Campos (1898-1930), Siqueira Campos espalhou estátuas do ídolo pelo Estado e municípios. De 60, o antigo norte de Goiás passou a ter 139.

Numa versão do Cerrado das oligarquias do “carlismo” e do “sarneysismo”, o “siqueirismo” ajeitou parentes e aliados em todas as esferas da administração pública. Siqueira Campos ganhou fama de “criador do Tocantins” e “pai do povo” com um discurso que misturava trechos bíblicos, nacionalismo e defesa do asfalto.

Pavimentou estradas de terra vermelha com verbas federais e prometeu a modernização da máquina pública. Em 2016, dois anos depois do último mandato de governador, ele foi levado coercitivamente para depor na Polícia Federal no âmbito da Operação Ápia, que investigou fraudes em licitações. Um dos maiores desafios de Siqueira Campos nos comícios nos grotões era enfrentar multidões acenando com contas de luz e água. “O Siqueira mesmo não tem dinheiro. Vocês querem estrada ou dinheiro?”, costumava responder.

No discurso no Senado, ele pediu “desculpas” para contar que teve um inimigo: Filinto Muller, delegado da ditadura do Estado Novo e senador no período militar. “Peço a Deus pela sua alma, mas lamento a sua atuação no panorama nacional”, disse. Foi o bastante para sites e blogs ligados ao clã Campos lembrassem que Filinto serviu a ditaduras e extraditou Olga Benário, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes. A mágoa de Siqueira, no entanto, tinha outro motivo.

Em 1972, o então deputado pela Arena de Goiás e Filinto, presidente nacional da legenda, eram de grupos rivais que brigavam pela atenção do ditador Emílio Garrastazu Médici. “Ele fez alguma coisa boa? Deve ter feito. Eu não sei, eu não conheço, mas deve ter feito. No entanto, uma convivência muito difícil e uma ação sempre distorcendo tudo aquilo que um homem público tem que conservar e tem que conduzir”, disse Siqueira Campos.

Correções
23/07/2019 | 16h39

Diferentemente do que informou a reportagem, o arquiteto Oscar Niemeyer é o autor em Palmas (TO) apenas do Memorial Coluna Prestes, na Praça dos Girassóis. Outro projeto do arquiteto no Tocantins, o Memorial da Passagem da Coluna Prestes, está localizado na margem da BR-010, entre os municípios de Arraias e Campos Belos. O texto já foi corrigido.

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