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Cresce no PT pressão pela cassação de Eduardo Cunha

Lula, porém, afirma a bancada petista que situação do presidente da Câmara não é 'problema' do partido

VERA ROSA, ISADORA PERON, TÂNIA MONTEIRO, ADRIANO CEOLIN E RICARDO GALHARDO, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2015 | 02h02

BRASÍLIA - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que a bancada do PT não deve centrar fogo no presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), mas procurou contornar o mal estar provocado no partido após o vazamento da tentativa de um acordo para salvar o mandato do deputado no Conselho de Ética. Diante do agravamento da situação de Cunha - hoje considerada "insustentável" -, Lula destacou que o importante, agora, é "virar a página do impeachment e do ajuste fiscal", mudar a política econômica e blindar a presidente Dilma Rousseff.

As negociações para livrar Cunha da cassação, em troca da garantia dele de barrar a abertura de um processo de afastamento de Dilma, foram feitas nos bastidores, nos últimos dias, e racharam o PT. "Cunha não é problema do PT", afirmou Lula, em reunião com deputados do partido, num hotel de Brasília. "O problema é sair da defensiva e ir para o enfrentamento. Quem esses tucanos pensam que são? De agora em diante tem que ser assim: bateu, levou."

Guinada. Mais tarde, o ex-presidente jantou com Dilma e com os ministros Jaques Wagner (Casa Civil), Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) e Edinho Silva (Comunicação Social), no Palácio da Alvorada. Na conversa, insistiu na necessidade de dar uma guinada na economia e na política para sair da crise.

O mesmo discurso já havia sido adotado antes por Lula, no encontro com deputados do PT. Para o ex-presidente, o partido e o Planalto erraram ao eleger Cunha como inimigo número um. Na sua avaliação, não adianta derrubar o homem que comanda a Câmara se o governo não reorganizar sua base aliada no Congresso, o PT continuar acuado e o crescimento econômico ficar próximo de zero. O argumento usado foi o de que, se o cenário atual não mudar e o governo não recuperar popularidade, Dilma pode não resistir mais adiante.

"Eu vou para a rua defender o quê?", provocou Lula. "A gente precisa vender esperança. Qual é o futuro? A agenda não pode ser só ajuste fiscal, Operação Lava Jato, impeachment. Todo dia tem uma péssima notícia."

O líder do PT na Câmara, Sibá Machado (AC), afirmou que Lula cobrou mais unidade. "Ele disse que essa situação de impeachment não é para brincar. Vamos precisar ter muito sangue, suor e lágrimas pela frente", comentou Sibá.

Dos 13 deputados com quem Lula se reuniu, antes de se encontrar com Dilma, seis assinaram a representação no Conselho de Ética da Câmara pedindo a cassação de Cunha, acusado pelo Ministério Público da Suíça de manter contas secretas com dinheiro desviado da Petrobrás.

Apesar de negar, o presidente da Câmara chegou a sugerir a emissários do governo a demissão do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sob a alegação de que ele não controla a Polícia Federal - mesmo argumento adotado por Lula. "Muitas pessoas têm ficado desgostosas com a minha postura de garantir a autonomia das investigações da Polícia Federal e de só atuar em caso de evidências de abusos e ilegalidades", disse Cardozo ao Estado. "Se é verdade que o presidente da Câmara quer a minha saída, deve ter as suas razões. Cabe a ele explicitá-las."

Correntes. Enquanto Lula tentava acalmar ontem o PT, oito correntes da legenda, entre as quais a "Mensagem ao Partido", grupo de Cardozo, enviaram à Executiva um pedido para que a sigla peça formalmente ao Conselho de Ética da Câmara a abertura de processo para investigar Cunha. "Com esta decisão, a Comissão Executiva Nacional orientará o conjunto da bancada a posicionar-se imediatamente na mesma direção", dizia a nota do PT.

Na guerra interna no partido, o Instituto Lula divulgou nota para desmentir que o ex-presidente tenha feito articulações com o objetivo de proteger Cunha no Conselho de Ética. "São escandalosamente mentirosas, portanto, as notícias publicadas a esse respeito (...). O ex-presidente considera que este assunto compete ao Legislativo e ao Judiciário, dentro da lei e da Constituição. O Brasil sabe que é a oposição, e não o PT, que há um ano vem promovendo articulações espúrias e barganhas, dentro e fora do Congresso, na desesperada tentativa de derrubar um governo democraticamente eleito", afirma o texto.

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