FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO
FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Cresce demanda por livros sobre política

Média de publicações de não-ficção vendidas no País triplicou desde 2013, aponta pesquisa

Adriano Cirino, especial para o Estado

04 de janeiro de 2020 | 21h49

Na contramão da crise que atinge o mercado editorial como um todo, as vendas de livros do segmento de política vêm crescendo no Brasil desde 2013, com clara aceleração nos últimos três anos, segundo dados de medição da Nielsen Bookscan, feita a pedido do Estado. Em 2013, início da série histórica, a média mensal de vendas do segmento era de 10 mil exemplares. Em 2019, essa média é três vezes maior, de 30 mil. A amostragem inclui milhares de pontos de venda dos principais varejistas de livros no País.

Os dados corroboram a percepção de autores, editores e livreiros consultados pela reportagem, segundo os quais, de uns tempos pra cá, os livros de não-ficção (aí incluídos os livros sobre política) têm tido uma demanda crescente. Essa é a impressão de Flávio Moura, editor e cofundador da Todavia. Segundo ele, “esses livros têm um papel relevante no debate de ideias do País”. “Existe uma vontade, por parte dos leitores, de entender o que está acontecendo no Brasil e no mundo”, disse.

Uma das publicações recentes da editora é O Brasil e Seu Duplo, de Luiz Eduardo Soares, que discute a polarização e os extremismos no País. Para o antropólogo e cientista político, o panorama atual deste segmento do mercado editorial no Brasil só se compara, em termos de mobilização intelectual em torno da política, com o período da redemocratização.

Ele diz que o novo livro foi escrito nos últimos sete anos. “Em 2013 era preciso pensar um novo Brasil que, de certa forma, emergia nas grandes manifestações de março. Depois veio o impeachment, a crise econômica, o ódio se instalando, as polarizações se intensificando. E o livro, que supostamente estaria pronto em 2014 ou 2015, teve de ser reaberto, reescrito e repensado continuamente até que as eleições do ano passado fecharam um ciclo. Era um momento que me permitia justificar a interrupção desse trabalho.”

Para Moura, a efervescência do setor editorial de política se deve ao momento por que passa não só o Brasil, mas os EUA e diversos países da Europa. “A democracia parecia um valor inquestionável, mas agora está sendo posto em questão, sobretudo por estes presidentes de extrema direita que têm assumido o poder”, disse.

Isabela Santiago, gerente de comunicação e marketing da Zahar (editora, no Brasil, do best-seller Como as Democracias Morrem), compartilha dessa percepção. “Não há dúvida de que a turbulência dos tempos atuais é um fator determinante para o aumento do interesse dos leitores em tais publicações”, afirmou. “Não seria surpreendente se livros de não-ficção, e particularmente livros sobre política, passassem a ocupar maior espaço nos catálogos das editoras e nas listas de mais vendidos.”

Ranking

Nada Menos Que Tudo, do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, alcançou a 7.ª colocação no ranking PublishNews dos livros de não-ficção mais vendidos em outubro, com 3.225 exemplares.

No mês de agosto, Os Onze, de Felipe Recondo e Luiz Weber, com 3.275 exemplares vendidos, alcançou a 9.º colocação. No acumulado de 2016, Lava Jato: Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, de Vladimir Neto, vendeu 80.931 unidades, conquistando o 3.º lugar no ranking anual de não-ficção. Foi a primeira vez, desde o começo da série histórica, que um livro sobre política chegou ao pódio.

“Não sei se dá pra falar em um ‘boom’ de vendas de livros políticos. Agora, é perceptível o aumento na oferta desse tipo de livros”, disse Leonardo Neto, editor-chefe do portal PublishNews. 

“Ao compararmos o mesmo período e a mesma categoria, registramos um crescimento de 37% em quantidade de livros vendidos”, afirmou Flávio Seibel, que é diretor comercial da Livraria da Vila. “A formação de leitores cria, em parte, cidadãos que ajudam a construir um País mais justo e democrático.” 

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