CPT vai para linha de frente

Comissão ligada à Igreja deixa retaguarda e promove invasões

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2004 | 00h00

A Comissão Pastoral da Terra (CPT), que é vinculada à Igreja Católica, está agindo em alguns Estados como movimento social e disputando espaço com o Movimento dos Sem-Terra (MST). O caso mais evidente é o de Alagoas - onde a CPT comandou dias atrás a invasão da Fazenda Boa Vista, do deputado Olavo Calheiros, irmão do presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB. No ano passado, grupos de sem-terra comandados pela mesma CPT tinham realizado uma ação mais espetacular: a ocupação do Porto de Maceió, que resultou na paralisação do movimento de cargas de açúcar e álcool.Trata-se da inversão do papel histórico da CPT, que, desde sua criação, em 1975, sempre atuou na retaguarda, estimulando a formação de movimentos sociais e dando apoio espiritual e material às suas ações. O MST, surgido em 1985, é fruto desse tipo de ação da pastoral.Movimento semelhante ao de Alagoas verifica-se também na Paraíba e, em menor escala, Pernambuco e Bahia. Na Paraíba, o superintendente recém-nomeado do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), com posse marcada para a próxima terça-feira, é um dos principais líderes da CPT no Estado, conhecido como Frei Anastácio. Filiado ao PT e candidato derrotado à Câmara dos Deputados na eleição passada, ele sempre figurou no noticiário local como líder de ocupações de edifícios públicos e de terras.A força da CPT na Paraíba é tão grande que, de acordo com estimativas do geógrafo Marco Mitidiero, que conclui uma tese de doutorado sobre o assunto, cerca de 90% dos assentamentos da reforma agrária no Estado estão sob a bandeira da pastoral. "Lá, quando ocorre uma ocupação, as freiras e os padres estão sempre na linha de frente", diz ele.Não se trata de uma situação nova. Ela tem origens na forte influência da Teologia da Libertação na região - e em conflitos entre facções da Igreja. A novidade está no fato de que, ao invés de refluir, como desejam lideranças da própria CPT e do MST, esse tipo de protagonismo religioso aumentou recentemente.No cenário nacional, a CPT ainda é o grande braço a serviço do MST, atuando na retaguarda. Mas também aí começam a surgir disputas - dessa vez no plano ideológico - que podem causar o distanciamento entre as duas entidades.

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