CPI revela isolamento de governo Olívio Dutra

A votação do relatório da CPI da Segurança Pública, que ameaça o mandato do governador Olívio Dutra, expõe o isolamento do governo petista do Rio Grande do Sul na Assembléia Legislativa. Desde sua posse em janeiro de 1999, o governador enfrentou várias crises políticas com a oposição e até com forças aliadas, fazendo minguar sua base de apoio. No início do governo, Olívio contabilizava 19 de 55 votos na Assembléia, e hoje são apenas 12 - 11 do PT e um do PCdoB.A principal defecção ocorreu no ano passado, com o rompimento da bancada do PDT durante as eleições municipais, quando o partido lançou o deputado Alceu Collares para disputar a prefeitura contra o petista Tarso Genro. Na ocasião, o relator da CPI, Vieira da Cunha, integrava a ala pedetista favorável à aliança com o PT, mas a intervenção de Leonel Brizola em favor de Collares e os desdobramentos da campanha eleitoral levaram o PDT para a oposição.O apoio dos pedetistas foi decisivo para a criação da CPI da Segurança em abril deste ano, depois de várias tentativas anteriores fracassadas, e o partido assumiu um papel protagonista nas investigações. A CPI foi inspirada principalmente pela tese de que o PT estava partidarizando a Segurança Pública, mas outras denúncias que surgiram no decorrer dos depoimentos acabaram levando a investigação para o envolvimento do partido e de autoridades estaduais com o jogo do bicho."A origem das denúncias foi o ventre petista", diz o relator Vieira da Cunha, referindo-se a uma gravação na qual o ex-tesoureiro do PT, Jairo Carneiro dos Santos, afirmava a jornalistas que a sede do partido teria sido comprada com doações de bicheiros para o Clube de Seguros da Cidadania. Foi daí que surgiram as investigações sobre a entidade e seu presidente, o economista e ex-guerrilheiro Diógenes de Oliveira.A CPI vasculhou a contabilidade e a movimentação bancária do clube e de Diógenes para buscar a origem dos recursos utilizados na compra do prédio, cedido em comodato ao PT desde a campanha de 1998. Nenhum vestígio de doação de bicheiro foi encontrada, mas a comissão obteve indícios de que vários recibos teriam sido forjados para esconder os verdadeiros contribuintes.Os parlamentares também receberam do ex-deputado Wilson Müller, ligado ao PDT, uma gravação na qual Diógenes pedia ao ex-chefe de Polícia, em nome do governador, que os bicheiros não fossem reprimidos. Tanto o PT como o governo tentaram se isentar de responsabilidade pelos fatos, mas o relator não se convenceu. "O PT e o clube são irmãos siameses, assim como não posso dissociar a figura do governador da do Diógenes (ex-assessor e ex-secretário de Olívio na prefeitura)", afirma Vieira da Cunha.Os líderes petistas tentam conter o desgaste com críticas aos excessos da CPI (reconhecidos por alguns oposicionistas) e, agora, com o afastamento voluntário de Diógenes do partido. "O caso Diógenes, com sua desfiliação, está resolvido", diz o vice-presidente estadual do PT, Paulo Ferreira. Internamente, entretanto, muitos dirigentes questionam quem mais estava envolvido nas "trapalhadas" do petista. O próprio chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra, deputado Flávio Koutzii, faz uma avaliação autocrítica."Isso não é um acidente", afirmou, neste sábado. "A ausência de controles sobre o clube não faz parte da tradição do partido." Para grande parte da cúpula, entretanto, o reconhecimento público dos erros cometidos pelo partido poderia ser utilizado, eleitoralmente, como atestado de culpa.

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