CPI dos Grampos manobra para confrontar Lacerda e Protógenes

Depoimento de delegado é adiado para aproximá-lo do de ex-chefe da Abin

Ana Paula Scinocca, O Estadao de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 00h00

O presidente da CPI dos Grampos, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), adiou para a semana que vem o novo depoimento do delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz à comissão, previsto inicialmente para hoje. Os parlamentares querem ouvir Protógenes em data próxima à do depoimento do ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Paulo Lacerda, que falaria no Congresso amanhã. Adido policial em Portugal, Lacerda alegou dificuldade de vir ao Brasil e solicitou transferência da data. A ideia da CPI agora é que Protógenes seja ouvido no dia 8 e Lacerda um dia depois.Mais próximo da política que da PF, Protógenes se blinda à espera de sua nova visita à Câmara. Indiciado pela própria corporação por quebra de sigilo funcional e violação da lei de interceptações, o ex-chefe da Operação Satiagraha - que resultou na prisão temporária do banqueiro Daniel Dantas - tem pretensões de disputar uma vaga de deputado federal, segundo pessoas próximas a ele.Na semana passada, ele esteve no Congresso costurando apoio e demonstrando preocupação com a possibilidade de sair preso da CPI. O temor o levou a recorrer na segunda-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF), para solicitar um habeas corpus preventivo para ficar calado no depoimento.A ida de Protógenes à CPI não é inédita. Em agosto, ele compareceu ao Congresso, mas decepcionou ao deixar de responder a perguntas, sob a alegação de que poderia atrapalhar o andamento da investigação. Ele foi reconvocado pela CPI em razão de reportagem da revista Veja, que afirmou que o ex-chefe da Satiagraha investigou autoridades, entre elas o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.Segundo o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), a CPI quer esclarecer dúvidas em relação à existência ou não de orientação da Presidência da República na Satiagraha. "Também é preciso ter a resposta para perguntas como quais as razões o motivaram a recorrer a pessoas estranhas ao sistema, como aposentados, para fazer investigação de inteligência."A contradição tem sido a marca de Protógenes. Depois de depor no Ministério Público Federal, ele já "corrigiu" suas próprias declarações por três vezes. A principal mudança de versão envolve o juiz Fausto De Sanctis e o procurador da República Rodrigo De Grandis. Em setembro, ele foi categórico ao afirmar que ambos "sabiam do auxílio" da Abin na operação da PF. Já no último dia 18, ele afirmou que os dois "não foram informados sobre a participação de agentes da Abin" na operação.Independentemente do que venha a falar, Protógenes deverá ter o apoio de claque no novo depoimento. Políticos ligados ao PSOL, entre eles o senador José Nery (PA) e o deputado Chico Alencar (RJ), já avisaram que estarão presentes na CPI para evitar "abusos". "Vamos prestar nossa solidariedade ao trabalho feito pelo delegado Protógenes", declarou José Nery.

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