CPI do Banespa suspeita de venda de títulos da dívida externa

A venda pelo Banespa, em outubro de 1998, de títulos da dívida externa brasileira, conhecidos como bradies, levantou suspeitas entre os integrantes da CPI do Banespa. A operação foi mencionada durante o depoimento do terceiro interventor do banco, João Alberto Magro, realizado nesta quinta-feira, que confirmou a venda dos títulos.Na opinião dos parlamentares, a operação foi feita em um momento errado, e os preços estavam abaixo do mercado. Segundo Magro, toda a operação foi feita baseada em orientação da área internacional do Banco Central e que não houve prejuízo ao Banespa.Os deputados defenderam que a venda dos bradies deveria ter ocorrido em 1997, antes da crise da Rússia, quando os papéis estariam valorizados no mercado. Magro, que foi interventor do Banespa entre outubro de 1995 e junho de 1999, recorda-se que a ameaça de uma crise na Rússia chegou a ser levantada em reuniões setoriais do BC mas, em sua avaliação, não houve erro de estratégia decidir vender as ações apenas em 1998. "Se houve perdas, o que não acredito, foram decorrentes de uma operação de mercado", justificou.Os parlamentares retornaram novamente à novela do balanço do Banespa de 1994, que teria sido tornado negativo graças a uma decisão do Banco Central, tomada em agosto de 1995, de colocar a dívida do Estado com o Banespa no item créditos em liquidação. Por conta de uma liminar obtida na Justiça, o balanço não foi publicado, o que só veio a acontecer em 1997, após uma decisão judicial proibindo a inclusão da dívida como crédito em liquidação.Os deputados detectaram, então, que João Alberto Magro incluiu três operações que, na visão dos integrantes da CPI, não poderiam estar no balanço de 1994. Uma provisão de R$ 335 milhões relativos à venda de títulos da dívida externa brasileira, outra de um passivo atuarial trabalhista de R$ 204 milhões que deveriam ser feitas durante um período de 18 anos, além de uma terceira provisão de R$ 215 milhões relativa à desvalorizações das ações da Companhia Energética de São Paulo. Essas ações teriam, em definitivo, tornado o patrimônio do banco negativo.Outra dúvida levantada durante o depoimento foi a razão pela qual o Banespa não ter aceito o pedido de renegociação da dívida do Estado com o banco, proposto pelo secretário de Fazenda do governo Covas, Yoshiaki Nakano, em fevereiro de 1995. Nakano propôs o alongamento do perfil da dívida, de dez para vinte anos apoiado por uma resolução aprovada em 1994 pelo Banco Central. "Nós não aceitamos porque a proposta não resolveria os problemas de liquidez do Banespa", explicou o interventor.Magro afirmou que, se a negociação de fato fosse concretizada, os juros da dívida seriam de 5% ao mês. "Isso é juro de prestação de geladeira. Com certeza, chegaria um momento em que a situação seria caótica novamente".O Baneser (Banespa Serviços Técnicos SA) foi outro fator preocupante para o Banespa, segundo o interventor. Criada para ser uma espécie de subsidiária para prestar serviços ao banco, chegou a ter 20 mil funcionários prestando serviços para o governo do Estado, sem atuar diretamente no banco. O segundo interventor, Antônio Carlos Feitosa, afirmou que chegou a haver 1390 funcionários lotados na presidência do Banespa. Boa parte desses servidores foi demitido posteriormente, mas o Baneser não foi fechado pelo governo estadual.

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