CPI do Apagão Aéreo é inevitável, dizem analistas

O acirramento da crise aérea no País, agravada na última sexta-feira, 30, com a greve dos sargentos controladores de vôos, torna inevitável a instalação da CPI do Apagão, no Congresso Nacional. A avaliação é do cientista político e pesquisador da PUC e FGV de São Paulo, Marco Antônio Carvalho Teixeira. "O governo está à deriva nessa questão e não tem como escapar dessa CPI", diagnosticou.A opinião é compartilhada pelo cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fábio Wanderley Reis. No seu entender, a CPI deverá trazer turbulências para o governo Lula, na medida em que a oposição tentará esmiuçar as denúncias de inoperância, incompetência e má gestão no setor.Para Fábio Wanderley, o PMDB - como partido da base aliada deste segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - vai ter um papel fundamental em todo esse imbróglio. "Este será o primeiro teste da postura do PMDB no Congresso. Será que a bancada (desta legenda) permanecerá fiel ao governo?", questiona o professor da UFMG. Ele acredita que se o governo conseguir manter a coesão de sua base no parlamento, sobretudo do PMDB, o impacto da CPI poderá ser menor e o governo poderá, com sua maioria, garantir a aprovação de medidas de seu interesse, mesmo que as atenções e os holofotes estejam focados nas investigações.Carvalho Teixeira também acredita que o PMDB terá papel fundamental nessa questão e será o fiel da balança no Congresso Nacional. Apesar disso, ele não acredita que o governo Lula conseguirá manter a coesão de sua base no parlamento. "Quando existe um clamor grande da sociedade, sobretudo numa grave crise como essa do setor aéreo, dificilmente o governo consegue controlar a sua base. Isso porque a carreira do próprio político e as pressões de seus eleitores acabam tendo um peso maior do que a fidelidade ao governo."Crise institucionalOs dois cientistas políticos avaliam que dificilmente o governo Lula enfrentará uma crise institucional por ter desautorizado, na última sexta-feira, a punição que as Forças Armadas queriam impor aos controladores grevistas. "No meu entender, o governo está confuso nessa questão, pois ontem recuou na questão da punição (dos sargentos controladores grevistas), devolvendo às Forças Armadas a decisão sobre o tema. Mas não acredito que o episódio possa deflagrar uma crise institucional", disse Carvalho Teixeira.Para Fábio Wanderley, apesar de ter ocorrido uma quebra na hierarquia militar (com a interferência de Lula no assunto), dificilmente a crise poderá desembocar em conseqüências mais sérias. "Para uma crise institucional ou um eventual golpe (militar), falta um ingrediente presente, por exemplo, na crise de 54 (que desembocou no suicídio de Getúlio Vargas), que é o enfrentamento nos substratos sociais da esquerda com a direita. Hoje, a crise não tem essa dimensão", complementou o professor.Segundo Carvalho Teixeira, o segundo mandato do presidente Lula começa com o desgaste natural de uma CPI. "A crise do setor aéreo atingiu tal dimensão que não dá mais para o governo e seus aliados realizarem uma operação abafa. E, obviamente, quando se abre uma Comissão Parlamentar de Inquérito, o governo fica exposto e mostra suas fragilidades." Para contornar esses desgastes, o cientista político acredita que o governo Lula deveria se antecipar e afastar aqueles que estão mais vinculados com o problema, como o ministro da Defesa, Waldir Pires.

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