Gabriela Biló
Gabriela Biló

Empresário admite relação com Ricardo Barros, mas nega atuação de líder do governo nas vacinas

Senadores viram contradições no depoimento de sócio da farmacêutica Belcher e reforçaram as suspeitas sobre a atuação do deputado ao negociar vacinas durante a pandemia

Amanda Pupo, Cássia Miranda e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 09h15
Atualizado 24 de agosto de 2021 | 19h48

BRASÍLIA  – Ao prestar depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) nesta terça-feira, 24, o empresário Emanuel Catori, sócio da farmacêutica Belcher, admitiu ter relações com o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), mas negou haver influência do deputado nas negociações de vacinas com o Ministério da Saúde.

Os senadores viram contradições no depoimento e reforçaram as suspeitas sobre a atuação de Barros ao negociar vacinas durante a pandemia do novo coronavírus. A investigação sobre a existência de um esquema de corrupção passou a ser a principal linha de apuração da CPI, que entrou na reta final e deve encerrar os trabalhos em setembro. 

Catori foi mais um personagem da CPI da Covid convocado para esclarecer as negociações do governo do presidente Jair Bolsonaro. A Belcher tentou vender 60 milhões de doses da vacina Convidecia, produzida pelo laboratório chinês CanSino. Uma intenção de compra foi assinada pelo secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, no dia 4 de junho. 

A empresa é sediada em Maringá (PR), reduto eleitoral do líder do governo, que passou a ser formalmente investigado pela comissão do Senado. A negociação segue o mesmo roteiro observado em outras duas vacinas na mira da CPI, a Covaxin e a Sputnik V: imunizantes mais caros produzidos por empresas internacionais, negociados por meio de intermediários no Brasil e elos com Ricardo Barros. E isso após o governo Bolsonaro adotar uma posição mais restrita a outros laboratórios, como a Pfizer e o Instituto Butantan.

O empresário foi levado por Barros para uma reunião no Ministério da Saúde com o atual ministro, Marcelo Queiroga, em abril. No depoimento, ele repetiu a versão do líder do governo e negou que o tema “vacina” tenha sido tratado. O sócio da Belcher afirmou que o encontro ocorreu para negociar a venda de um medicamento antiviral distribuído na Rússia.

“Eu converso com ele normalmente, mas nada sobre negócios. Ele é de Maringá, nós somos de Maringá”, disse o empresário, confirmando que tem conversas periódicas com Ricardo Barros. Investigado pela CPI, o líder do governo nega qualquer atuação para favorecer laboratórios nas negociações com o Ministério da Saúde. 

O sócio da Belcher Farmacêutica classificou como “mera coincidência” a contratação do advogado Flávio Pansieri para atuar como consultor da empresa no processo regulatório da Convidecia. Pansieri é ligado a Ricardo Barros e também representa o parlamentar na Justiça, além de ter sido sócio em negócios da família do deputado. 

A palavra “comissionamento” chamou a atenção dos parlamentares. Os senadores lembraram imediatamente da atuação de representantes da Davati, que ofereceram vacinas sem comprovar a capacidade de doses e acusaram o governo de pedir propina. “Mais uma semelhança com o Dominghetti, uma comissão por dose”, disse o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL).

No depoimento, Catori afirmou que o grupo asiático CanSino revogou unilateralmente as credenciais da Belcher para representar a empresa no Brasil por razões de compliance. Segundo ele, a farmacêutica avalia se vai judicializar a CanSino pelo rompimento do contrato. “A Belcher não reconhece as alegações de compliance em prejuízo a nossa companhia, por isso nossos advogados estão avaliando acerca da possibilidade ou não da judicialização da descontinuidade unilateral promovida pela Cansino”, disse Catori.

Veja como foi o depoimento de Emanuel Catori, sócio da farmacêutica Belcher, à CPI da Covid:

Proximidade com bolsonaristas

Como mostrou o Estadão, a relação da Belcher com o bolsonarismo vai além de Barros. Catori já apareceu ao lado de empresários próximos do presidente Jair Bolsonaro que defenderam a compra da vacina chinesa, caso de Carlos Wizard. Outro empresário que defendeu a aprovação da Convidencia pela Anvisa foi Luciano Hang. 

De acordo com Catori, seu contato com os empresários bolsonaristas no âmbito da compra de vacinas era voltado ao interesse de doação de imunizantes ao governo brasileiro. 

“Não há qualquer relação da Convidencia com esses empresários”, disse Catori, segundo quem as conversas para uma eventual doação envolviam o laboratório Sinovac, responsável pela produção da vacina Coronavac.

“Entre fevereiro e março a Belcher foi convidada para contribuir tecnicamente com grupo de empresários interessados a doar vacinas, insumos e equipamentos para o SUS. Objetivo era humanitário”, afirmou o empresário. Ele também tentou esclarecer a participação em uma live com os três empresários no dia 17 de março. “Realizei apenas duas pequenas intervenções, falei sobre os esforços que estavam em andamento na tentativa de viabilizar a doação de vacinas ao Brasil”, disse Catori.

De acordo com o empresário, a Belcher havia conseguido contato com a Sinovac, com a qual se “aventou a possibilidade” de aquisição de 9 milhões de doses de vacinas prontas da Coronavac. “Seriam adquiridas pelo grupo de empresários e integralmente doadas, sem fins comerciais”, disse Catori, segundo quem, naquele momento, era desconhecida a relação de exclusividade entre o Instituto Butantan e a Sinovac para disponibilização da Coroavac no Brasil.

Um grupo de empresários, liderado por Wizard e Hang, foi o responsável pelo pedido de autorização de uso no Brasil desse imunizante chinês. Catori chegou a participar de uma “live” ao lado dos empresários, quando defendeu a vacinação pelo setor privado para “agilizar o processo de vacinação em massa para que tudo volte à normalidade o mais rápido possível”. 

A convocação de Catori foi requerida pelo vice-presidente da CPI da Covid, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que argumenta que o depoente terá que esclarecer “os detalhes das negociações para a venda da vacina chinesa Convidecia”. De acordo com Randolfe, Catori “fez transmissões online com os empresários Luciano Hang e Carlos Wizard para tratar da venda da vacina para o Brasil”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.