Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na CPI, Airton Cascavel diz que foi nomeado porque militares não tinham ‘traquejo político’

De acordo com a comissão, empresário teria atuado informalmente no Ministério da Saúde antes de ser nomeado

Matheus de Souza, Daniel Weterman e Cássia Miranda, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 09h32
Atualizado 05 de agosto de 2021 | 18h36

SÃO PAULO e BRASÍLIA – O empresário e ex-assessor Airton Soligo, conhecido como “Airton Cascavel”, afirmou aos senadores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid que atuou no Ministério da Saúde, loteada por militares, para fazer articulação política com parlamentares, Estados e municípios. Com histórico na vida pública, tendo sido prefeito, deputado estadual e deputado federal, o ex-assessor afirmou que os integrantes das Forças Armadas não tinham "traquejo político" nas relações do governo. 

“Tenho o maior orgulho do nosso Exército e das Forças Armadas Brasileiras, mas não têm o traquejo político do trato e acho que, talvez, foi aí que precisavam dessa relação com o Congresso”, disse Soligo. “Eu fazia a grande articulação entre a ponta e ação do ministério, mas as decisões sempre são técnicas e objetivas por um corpo técnico do ministério.” 

Soligo ocupou o cargo de junho do ano passado a março de 2021, mas admitiu que atuou como um “colaborador eventual” da pasta antes de sua contratação. Em 2020, a imprensa revelou a atuação informal do empresário no Ministério da Saúde como assessor do ex-ministro Eduardo Pazuello. Na definição do requerimento aprovado determinando a convocação de Cascavel, ele teria sido “ministro de fato”. Aos senadores, porém, o ex-assessor declarou que “nunca houve um processo de terceirização de competência”. 

Pazuello nomeou o amigo como assessor especial após a denúncia do vínculo informal. Soligo diz que conheceu Pazuello durante sua atuação na Operação Acolhida. Sobre sua chegada ao ministério, ele afirmou que inicialmente foi convidado para ser assessor por 10 dias pelo então ministro Nelson Teich, que logo saiu do Ministério, quando Pazuello assumiu e o nomeou.

Airton declarou que quando chegou à pasta sua função não era de “especialista de saúde”, mas de interlocução, atuando de forma institucional na relação com o Congresso Nacional e com os municípios. Questionado, Soligo disse se sentir preparado para o cargo. “Sinto que estava preparado para essa função”, disse. “Nunca vi um secretário municipal estadual me condenar, diziam inclusive que eu ajudava”. 

Destacando sua atuação no parlamento, o depoente afirmou que “muito mais que um empresário”, ele se considerava um servidor público. Cascavel, como é conhecido, disse que dedicou mais da metade da sua vida ao serviço público. “Fui prefeito municipal aos 24 anos, fui deputado constituinte, presidente da assembleia legislativa do meu Estado, vice-governador, presidente do conselho deliberativo do Sebrae, presidente da companhia de desenvolvimento, deputado federal pelo PPS, e na Câmara, fui presidente de duas comissões”, declarou, afirmando ter exercido todos esses cargos pelo seu Estado, Roraima.

Amizade

A amizade entre Airton Cascavel e o general Pazuello deu ao empresário a oportunidade de participar de agendas públicas e reuniões da pasta com o ex-ministro. Pouco menos de dois meses após deixar o posto no governo federal, Cascavel foi nomeado pelo governador Antonio Denarium (sem partido) — apoiador do presidente Jair Bolsonaro — como secretário estadual de Saúde de Roraima. Ele passou apenas dois meses e 17 dias à frente da pasta.

Segundo o vice-presidente da CPI da Covid, que é autor do requerimento de convocação do depoente, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), gestores estaduais e municipais consideravam que Airton Cascavel era quem resolvia muitas das questões burocráticas e logísticas do Ministério, daí a afirmação de ele seria “ministro de fato”: “Durante a gestão Pazuello, da qual o senhor Airton Antonio Soligo teve papel preponderante, o Brasil presenciou o colapso dos sistemas de saúde pelo País”, afirmou Randolfe.

Além da atuação empresarial, Cascavel tem algumas vitórias eleitorais no currículo. Ele já foi prefeito de Mucajaí (1989-1990), no interior de Roraima, e deputado estadual pelo PTB (1991-1995) — tendo, inclusive, presidido a Assembleia Legislativa. Foi ainda vice-governador de Roraima (1995-1998) pelo PTB. 

Entre 1999 e 2002, Airton Cascavel foi deputado federal por Roraima, cargo que disputou novamente em 2018, pelo PRB. Na ocasião, ele alcançou 10.490 votos, sem conseguir se eleger. 

Requerimentos

A CPI aprovou um bloco de requerimentos ao encerrar a reunião desta quinta-feira. Entre eles está a convocação de Marcos Tolentino da Silva, apontado como sócio oculto da empresa que forneceu uma garantia irregular no negócio de compra da vacina indiana Covaxin. O contrato é investigado pela CPI. A comissão também resolveu quebrar o sigilo bancário e fiscal da FIB Bank Garantias, usada pela Precisa Medicamentos, que intermediou a compra da Covaxin, para oferecer uma carta de fiança ao Ministério da Saúde.

A CPI aprovou ainda a quebra do sigilo telefônico do empresário Rodolfo Forte Neto, acusado de ter contatos com agentes políticos e representantes do governo na tratativa de aquisição de vacinas.

“Como há justo receio de que muitas dessas pretensas contratações foram eivadas de vícios de legalidade, é imprescindível que se levante o sigilo telefônico do Sr. Rodolfo”, escreveu o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) no requerimento aprovado. 

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