Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Falta de autonomia e uso de cloroquina: veja principais pontos do depoimento de Teich na CPI

Ex-ministro da Saúde, que ficou no cargo por 29 dias, pediu demissão após divergências insuperáveis com o presidente Bolsonaro

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 19h19

BRASÍLIA – O ex-ministro da Saúde Nelson Teich afirmou que o governo de Jair Bolsonaro não lhe deu a autonomia que julgava ser necessária para liderar a pasta no combate ao novo coronavírus. Em depoimento à CPI da Covid nesta quarta-feira, 5, porém, o médico apontou as dificuldades que enfrentou para realizar seu trabalho.

Teich ficou no cargo por 29 dias. Pediu demissão após divergências insuperáveis com Bolsonaro, principalmente quanto à ampliação do uso da cloroquina para pacientes com a covid-19.

Veja abaixo os principais pontos do depoimento de Teich à CPI, criada com o objetivo de apurar erros e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia:

Não dar autonomia ao ministério

A principal queixa apresentada pelo ex-ministro Nelson Teich à CPI diz respeito ao que interpretou como falta de autonomia e de liderança para exercer o comando do Ministério da Saúde.

Na avaliação dele, seria fundamental que o enfrentamento fosse liderado pela pasta, mas ele não teve essa oportunidade.

Teich afirmou que o presidente conhecia seus pontos de vista acerca das estratégias que deveriam e não deveriam ser desenvolvidas. Mesmo assim, insistia com iniciativas com as quais o então ministro não concordava.

“As razões da minha saída são públicas. Elas se devem basicamente à constatação de que eu não teria autonomia e liderança que imaginava indispensáveis ao exercício do cargo. Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação à divergência com o governo quanto à eficácia e extensão do uso do medicamento cloroquina”, afirmou.

Indicou Pazuello para a secretaria executiva

À CPI da Covid, Nelson Teich afirmou que a escolha do general Eduardo Pazuello para o cargo de secretário executivo do Ministério da Saúde, o número 2 da pasta, foi uma indicação pessoal do presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, Teich afirmou que a escolha não foi uma imposição. Ele refletiu e concordou com a opção. Além disso, destacou que o então secretário trabalhou e progrediu conforme suas orientações.

Teich disse que o ex-auxiliar, depois transformado em seu substituto, desempenhou bem o seu papel.

“Nós trabalhamos juntos ali ao longo do período que eu tive. A gente... Eu defini as coisas que tinham que ser feitas. A gente conversava sobre como conduzir, e ele ia executando o que eu falava. Na verdade, quem definia era eu. Quem trabalhava a estratégia, quem discutia o que fazer era eu”.

Insistência para ampliar o uso da cloroquina

A insistência do presidente Bolsonaro em ampliar o uso da cloroquina para pacientes com a covid-19 foi um dos principais motivos que levaram Nelson Teich a pedir a exoneração.

O remédio serve contra malária, artrite reumatoide e lúpus, mas não há comprovação científica de serventia contra o novo coronavírus. 

O ex-ministro narrou que uma sequência de acontecimentos tornaram irreversível a sua saída. Em conversa com apoiadores, no Palácio da Alvorada, o presidente disse que os ministros deveriam ser afinados com ele.

Além disso, o presidente fez reunião com empresários em que prometeu um protocolo de flexibilização do uso do remédio. Por fim, Bolsonaro disse numa transmissão ao vivo, publicamente, que o governo ampliaria o uso.

“Aquela sequência mostrou que eu não tinha, que eu não teria autonomia para conduzir. E ali não tinha sentido eu continuar”, disse. Por outro lado, ele negou ter recebido ordens diretas do presidente ou de auxiliares do Planalto para alterar o critério. 

Prescrição de cloroquina é inadequada

Nelson Teich afirmou aos membros da CPI da Covid que a prescrição de cloroquina para pacientes infectados pelo novo coronavírus é inadequada, com base nos estudos disponíveis.

Senadores governistas buscaram reforçar a tese de que há estudos paralelos que colocam esse remédio como uma alternativa possível em cenário de catástrofe, sem outro medicamento à disposição.

Teich rebateu todas as afirmações que defendiam a administração do remédio.  “É difícil julgar em relação a crime – crime, eu não sei dar uma posição sobre isso. Em relação à parte ética, eu acho que essas pessoas acreditam no que elas estão fazendo, mas a minha impressão é de que essa prescrição é inadequada”, disse, ao responder pergunta sobre médicos que recomendam a cloroquina.

O ex-ministro reforçou não concordar com o referendo da pasta à expansão do uso de qualquer droga que não tenha sido submetida à avaliação profunda. “Não é para a cloroquina. É para qualquer medicamento. Existe uma metodologia para você incorporar um medicamento”, frisou.

Alertou Bolsonaro sobre riscos de segunda onda

As posições do presidente Jair Bolsonaro, consideradas equivocadas pelas autoridades sanitárias, não se alteraram mesmo com alertas feitos pelo então ministro Nelson Teich sobre o risco de uma segunda onda de infecções pelo novo coronavírus.

Aos senadores, Teich afirmou que apresentava esse risco ao presidente, em razão da possibilidade de surgimento de novas variantes do vírus.

“Isso era uma coisa que eu falava. Eu colocava isso claramente, porque o que acontece? A gente tem um desconhecimento da doença. O que está acontecendo agora, por exemplo, é a evolução das variantes, que, em minha opinião pessoal, eu acredito que tenham impacto grande nas novas ondas”, comentou.

Não mensurou contribuição de Bolsonaro para agravamento do quadro

Ao contrário do que fez o também ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich evitou atribuir às condutas e declarações do presidente Jair Bolsonaro alguma parcela de responsabilidade direta pela aceleração e pelo agravamento da pandemia no País.

Questionado objetivamente sobre essa contribuição negativa do presidente, disse ser “muito difícil” calcular esse impacto. “Esse tipo de mensuração tem que ser feito de forma científica. Conseguir projetar a partir de palavras o quanto isso impactou em mortalidade, isso é muito difícil”, declarou. “Sem alguma base científica, não teria como responder”.

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