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CPI da Covid diz que motoboy da VTClog pagou boletos de ex-diretor do Ministério da Saúde

Relator Renan Calheiros apresenta imagens que mostrariam Ivanildo Gonçalves Silva em agência bancária no mesmo momento em que eram pagas contas de Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística

Julia Affonso, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 14h53

BRASÍLIA – O relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), apresentou nesta terça-feira, 31, imagens que mostrariam o motoboy da empresa VTC Operadora Logística (VTCLog) Ivanildo Gonçalves Silva em uma agência do Bradesco, em Brasília, no mesmo momento em que cinco boletos atribuídos ao ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias eram pagos. Após entrar na mira da CPI, Dias foi demitido da pasta em no fim de junho.

Os boletos pagos em nome de Dias foram emitidos pela Voetur, grupo empresarial ao qual a VTCLog pertence. A CPI ainda busca entender por que o motoboy da VTCLog teria pago boletos do ex-diretor do ministério.

A comissão ouviria o motoboy Ivanildo Silva hoje, mas o depoimento foi cancelado após o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), conceder a ele o direito de não comparecer à oitiva. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que o motoboy sacou milhões de reais em espécie para a VTCLog.

As imagens apresentadas por Renan Calheiros mostram um homem dentro de uma agência bancária, próximo a uma porta giratória, com um capacete no braço, em 22 e 24 de junho. O senador também apresentou extratos bancários de 22 de junho, no valor de R$ 6 mil, e de 24 de junho no total de R$ 13.525, 31.

Calheiros disse que o homem na imagem do sistema do banco é Silva. Na avaliação do relator, a presença do motoboy no banco, no mesmo dia e na mesma hora em que boletos estavam sendo pagos, “comprova verdadeiramente o conluio existente no bastidor do Ministério da Saúde no exato enfrentamento da pandemia”.

“Nós acabamos de receber indícios veementes de que era o próprio Ivanildo, o motoboy, que pagava os boletos de dívidas junto à Voetur do Roberto Ferreira Dias”, afirmou o senador.

A Voetur presta serviços de turismo, e o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (REDE-AP), afirmou que os boletos foram emitidos pela empresa. “Como se a Voetur tivesse prestado serviço para o sr Roberto Ferreira Dias”, declarou o senador. A CPI reuniu documentos que apontam que a Voetur teria emitido ao menos nove boletos bancários em nome de Dias. Os boletos em posse da comissão variam de R$ 782,22 a R$ 7,5 mil e têm datas de vencimento entre 18 de maio e 6 de julho deste ano.

Um dos extratos bancários apresentado pelo relator é de 22 de junho e registra o pagamento de um boleto de R$ 6 mil, com vencimento no dia seguinte.

O outro extrato é de 24 de junho e aponta o pagamento de 4 boletos de Dias. Um de R$ 4.193,32, outro de R$ 2.186,97, mais um de R$ 785,22 e ainda um de R$ 6.359,80. Os quatro boletos têm data de vencimento em 25 de junho.

A VTCLog entrou na mira da CPI da Covid por suspeita de irregularidades em aditivo de R$ 18 milhões para contrato em andamento com o Ministério da Saúde. A empresa é a encarregada do transporte de medicamentos e também a atual responsável pela distribuição de vacinas no Programa Nacional de Imunizações (PNI).

A defesa de Roberto Dias afirmou que, por enquanto, não vai se manifestar.

Em nota, a VTCLog informou que "jamais houve qualquer depósito" da empresa ou de qualquer subsidiária do grupo na conta de Roberto Dias.  "O que as imagens maldosamente editadas não mostram é que o ex-diretor, assim como milhares de consumidores, é usuário dos serviços da Voetur Turismo, empresa pertencente ao grupo", afirmou.

Segundo a empresa, o ex-diretor "efetuou pagamentos – e não recebeu ou foi beneficiário em suas contas – de qualquer vantagem por parte da Voetur".  A VTCLog declarou que Roberto Dias usou duas formas de pagamento, "transferência eletrônica (portanto, rastreável) e pagamentos dele para a empresa em espécie". 

"Atualmente, há pagamentos em aberto (R$ 20 mil), portanto Roberto Dias está inadimplente e as cobranças foram devidamente protestadas", afirmou.

"A Voetur é credora e não pagadora de qualquer recurso ao ex-diretor. Lamentamos a distorção e a precipitação no tratamento de dados tão sensíveis. A empresa reitera a correção de todos os seus atos e se reserva o direito de fazer a defesa técnica em profundidade nas esferas devidas."

Depoimentos

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou na sessão de hoje que o motoboy não é investigado da comissão, mas testemunha. Após a decisão de Nunes Marques, a cúpula da CPI tentou ouvir a CEO da VTCLog, Andréia Lima, mas ela não confirmou presença.

Aziz declarou, no início da audiência, que, “agora, a CPI irá focar no depoimento de todas as pessoas da VTCLog. Todas, sem exceção. Nós iremos a fundo na VTCLog até a CPI concluir”.

“Se a dra Andréia realmente quisesse esclarecer, ela estava aqui hoje. Ela teria pego um avião às 7h da manhã em São Paulo e estaria aqui 9h da manhã. A verdade é que há uma protelação muito grande e nós vamos a fundo agora.” Para Renan, a decisão de Nunes Marques foi um “retrocesso”.

Em nota, a VTCLog afirmou que o habeas corpus concedido ao motoboy “reforça o papel desempenhado pelo funcionário Ivanildo Gonçalves da Silva, uma vez que o mesmo apenas realiza serviços de deslocamento, incluindo diligências bancárias, atos que são necessários à administração da empresa, não desempenhando, dessa forma, nenhuma função que possa colaborar com as investigações da CPI da Covid-19”.

Segundo a empresa, Andréia Lima “está à disposição para contribuir com os trabalhos da CPI, mas devido à agenda prévia de viagem relacionada a logística de distribuição das vacinas”, não poderia comparecer ao Senado hoje.

“Entretanto, o recebimento desta convocação específica foi feito, após as 22h desta segunda, às vésperas de tarefas inadiáveis que exigem a sua presença na capital paulista”, informou a empresa. “Andréia Lima tem pleno respeito aos trabalhos da CPI, de modo que sempre esteve e está à disposição de convocação prévia que observe o prazo regimental que se aplica a todo e qualquer cidadão.”

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