Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

CPI da Covid aprova convocação de ex-mulher de Bolsonaro

Ana Cristina Valle é citada em conversas do lobista Marconny Albernaz Faria, um dos alvos da comissão

Julia Affonso, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 16h05

BRASÍLIA – Em mais uma derrota para o governo de Jair Bolsonaro, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid aprovou nesta quarta-feira, 15, um requerimento para convocar a advogada Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente, para prestar depoimento. O motivo é a relação dela com o advogado Marconny Albernaz Faria, investigado sob suspeita de ter atuado como lobista da Precisa Medicamentos. A empresa que fechou contrato bilionário com o Ministério da Saúde para vender vacinas.

A convocação da ex-mulher de Bolsonaro é mais indício da falta de articulação do governo no Senado. Minoria na CPI e com relação conturbada com o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), o Palácio do Planalto tem sofrido sucessivas derrotas. Na terça, 14, teve uma medida provisória que dificultava a remoção de conteúdo das redes sociais devolvida, iniciativa pouco usual.

Segundo o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), Faria demandou a ex-mulher de Bolsonaro por duas vezes em questões relacionadas ao governo. Em uma delas, afirmou o parlamentar, o advogado pediu uma “atenção especial” para um caso de investigação de corrupção. Em outra, solicitou interferência para um cargo público. Ana Cristina é mãe de Jair Renan, o quarto filho do presidente, com quem Faria também admitiu ter relação de amizade. Ana Cristina e Jair Renan moram hoje em Brasília.

Em uma segunda oportunidade, o advogado recorreu à ex-mulher de Bolsonaro para influenciar a nomeação ao cargo de chefe da Defensoria Pública da União (DPU). O candidato apoiado por Faria era o defensor público Leonardo Cardoso.

“O detalhamento vai ao nível de escolher se o pedido vai por e-mail, vai por mensagem, que é mais pessoal. Vai ao detalhe de tentar atacar os adversários na corrida pela nomeação, dizendo que são de esquerda” relatou Alessandro Vieira.

Questionado por Vieira se conhecia Cardoso, o advogado disse, primeiro, que não. Depois voltou atrás. “Estive com ele uma vez”, afirmou Faria.

Bolsonaro e Ana tiveram relação conturbada

Ana Valle viveu com Jair Bolsonaro do fim da década de 1990 até 2008. Foi quando ela e o então deputado federal se separaram. Até então, foi assessora de Carlos, o filho Zero Dois do presidente, na Câmara Municipal do Rio. Carlos foi eleito para a Casa, pela primeira vez, em 2000, aos 17 anos. Atualmente tanto ela como o vereador pelo Republicanos são investigados pelo Ministério Público do Rio. A suspeita é a mesma que ronda o irmão mais velho de Carluxo, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ): a suposta prática de “rachadinha”. É a apropriação dos salários de assessores, muitas vezes, fantasmas. Os Bolsonaros negam as acusações. Atribuem a perseguições políticas.

Em 2018, quando o ex-marido se candidatou a presidente, Ana tentou uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo Podemos. Usou o nome de urna de Cristina Bolsonaro – com um sobrenome que jamais registrara - e fracassou. Obteve menos de 5 mil votos. À Justiça Eleitoral, declarou então pouco mais de R$ 842 mil em patrimônio. A lista incluía cinco  imóveis, um salão de beleza e cotas de duas empresas. Boa parte foi acumulada durante a união, segundo certidões de cartórios distribuidores de registros de imóveis do Rio obtidas pelo Estadão.

Embora juntos na eleição de 2018, Ana e Jair tiveram um fim de relação conturbado. Segundo a revista Veja, na ação judicial de separação ela acusou o ex-marido de ter furtado de um cofre no Banco do Brasil cerca de R$ 1,6 milhão, em valores de 2018. Seria a soma de jóias, dólares e R$ 200 mil em espécie,  valores incompatíveis com a renda de Bolsonaro, ali guardados. 

O caso foi registrado na Polícia e originou um inquérito. A investigação apurou que tanto Ana como Bolsonaro tinham chaves do cofre. Ela também o acusou de ocultar patrimônio e ter renda mensal de R$ 100 mil, incompatível com seus rendimentos oficiais. E chegou a deixar o Brasil, com Jair Renan. Acusando o ex-marido de temperamento explosivo, foi morar na Noruega. Em 2018, já reconciliada com Jair e candidata à Câmara dos Deputados, a repórteres desmentiu as acusações.

A ex-mulher de Bolsonaro, porém, continuou ativa no mercado imobiliário. Escritura do 10º Ofício de Notas comprova que em 19 de julho de 2019 Ana comprou um apartamento na Barra da Tijuca, zona oeste da capital fluminense. Pagou oficialmente R$ 420 mil, por um imóvel avaliado pela prefeitura do Rio, para fins de tributação, em R$ 1.194.191,30. O preço registrado foi 35% desse valor. Embora ninguém seja legalmente obrigado a seguir o preço fixado pelo município, órgãos de controle veem esse tipo de negócio com desconfiança. Farejam lavagem de dinheiro.

Recentemente, Ana voltou ao noticiário. Mudou-se com Jair Renan para uma mansão em Brasília, avaliada em R$ 3,2 milhões. Afirmou que o imóvel é alugado, mas a suspeita é que o endereço esteja em nome de laranjas. A acusação foi feita por Marcelo Nogueira, que se apresenta como ex-assessor de Flávio. Em entrevista ao portal Metrópoles, ele afirmou que a casa está no nome de dois laranjas – mas pertence a Ana, que teria usado dinheiro da venda do apartamento  da Barra, que vendeu, para o negócio. Ele denunciou a segunda ex de Bolsonaro ao Ministério Público do Trabalho, por supostas violações trabalhistas, no Distrito Federal.

 

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