CPI começa a ouvir envolvidos no tráfico de rins

A CPI estadual que apura o tráfico de rins, instalada na terça-feira, quer descobrir porque a Polícia Federal não questionou o fato de mais de 30 pessoas de baixo poder aquisitivo terem tirado passaporte nos últimos dois anos, além de identificar os motivos que levaram a quadrilha de tráfico de órgãos a se instalar em Pernambuco.Depois de ouvir ontem os primeiros depoimentos de indiciados no inquérito da Polícia Federal - Hernani Gomes da Silva, 34 anos, e Márcio César do Nascimento, 25 -, o presidente da CPI, deputado estadual Raimundo Pimentel (PSDB) destacou a extrema confiança dos depoentes na organização criminosa. "Um deles chegou a viajar sem um tostão no bolso, sem nenhum temor", afirmou.Apesar das negociações terem ocorrido, segundo os "doadores", em mesas de bar do bairro Jardim São Paulo, zona oeste do Recife, para o deputado, devia haver alguma estrutura por traz desse esquema para que as pessoas tivessem tanta confiança.A CPI conseguiu acesso ao inquérito, que corre em segredo de justiça, e aguardava ainda ontem uma cópia do documento, que seria enviado pela juíza federal Amanda Torres de Lucena. Somente depois de avaliar os depoimentos dados à PF, os membros da CPI estadual irão definir novos depoimentos.Hernani e Márcio integram o rol de 27 indiciados pela PF no inquérito concluído esta semana e enviado para o Ministério Público Federal. Eles estão em liberdade porque sua participação no esquema limitou-se à venda dos órgãos.Eles reafirmaram terem sido aliciados, pessoalmente, pelo capitão da reserva da Polícia Militar Ivan Bonifácio da Silva, preso desde o dia 2 e apontado como um dos líderes da quadrilha. Eles passaram por exames de laboratório, tiveram passaportes expedidos e viajaram para Durban, na África do Sul, onde se submeteram a cirurgia de retirada de um rim no Hospital St. Augustine e receberam US$ 6 mil.Em entrevista à imprensa, Hernani disse ter sido ameaçado de morte duas vezes, nesta semana, através de recados, supostamente porque estaria "falando demais".Os outros depoentes da CPI foram João Cavalcanti Ribeiro e Gérson Luiz Ribeiro de Oliveira, que venderam o rim e estão presos porque teriam se tornado aliciadores. Eles foram ouvidos reservadamente.

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