Covas mantém hábitos apesar da doença

Nem a doença nem o fato de estar licenciado faz Mário Covas deixar de ir diariamente a seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo e residência oficial do governador do Estado de São Paulo. Nesta primeira semana, depois da alta do Instituto do Coração (Incor), o governador fez tudo o que costuma fazer: passou boa parte do tempo em seu gabinete, falou com secretários, deu suas tradicionais ?broncas?, foi em inaugurações oficiais, viajou e brigou com manifestantes. O câncer na meninge, membrana que envolve o cérebro, a medula espinhal e a coluna cervical é uma doença grave, mas alterou muito pouco o ritmo de vida do governador licenciado, que costuma chamar esse retiro forçado de ?férias?.Segundo assessores próximos, Covas é um inimigo da rotina. Gosta sempre de decidir com muito pouca antecedência seus compromissos, o que já acontecia antes de seus últimos problemas de saúde. Agora, por estar de licença, ele sequer tem a obrigação de divulgar uma agenda com certa antecipação, o que deixa seus assessores sempre em estado de alerta e os jornalistas de prontidão em plantões infindáveis na sede do governo. Basicamente, ele mantém uma rotina em poucas coisas e três delas se referem a seu tratamento de saúde. Ele toma todos os remédios nas horas corretas, todos os dias, graças a uma enfermeira que fica ao seu lado quase todo o tempo, controlando os medicamentos. Ela também cuida da sua fisioterapia: Covas faz exercícios diários para as pernas, por conta do uso de cadeiras de rodas. O objetivo é impedir que a musculatura das pernas perca a força por falta de atividade. Ele também tem sessões de quimioterapia todas as segundas e quintas-feiras, que são feitas na ala residencial do Palácio. A quarta sessão foi feita ontem. Um das poucas coisas alteradas em sua rotina foi o sono, que se modificou depois da cirurgia de remoção da bexiga por causa de um tumor e da colocação de uma neobexiga, em uma cirurgia feita em 1998. Até então, Covas dormia a noite toda, sem interrupção do sono. Com a operação, ele foi obrigado a acordar à noite para reeducar sua bexiga. Depois da recidiva do câncer, no final de 2000, ele passou a dormir menos ainda. Amanhecer às 5h30Covas costuma ter alterações no sono, acordando e voltando a dormir em seguida. Ele acorda por volta das 5h30, começando seu dia. Licenciado, ele tem um pouco mais de tempo para ler os jornais, além do clipping, uma seleção feita pela sua assessoria de imprensa com as notícias relacionadas a ele mesmo e ao governo estadual. O clipping chega às suas mãos às 7 horas e Covas lê o material enquanto toma café da manhã. Às 7h30, Covas vai até seu gabinete. O governador em exercício, Geraldo Alckmin, preferiu continuar despachando em seu gabinete de vice-governador. O horário normal de funcionamento do Palácio começa às 8 horas, mas por haver uma antecipação por parte do governador, seus principais assessores também mudaram seu horário de trabalho. Covas tem duas secretárias e uma delas agora chega mais cedo. O secretário de Comunicação Social, Osvaldo Martins, o secretário-adjunto da Casa Civil, Sebastião Farias, e seu secretário particular, Antônio Carlos Malufe, estão entre os que tiveram os horários alterados. O governador licenciado tem usado o período da manhã para conversar com algumas pessoas, a começar pelo governador em exercício Geraldo Alckmin. De acordo com assessores próximos, ambos praticamente trocaram seus papéis. Covas sempre fez questão da participação ativa de Alckmin nas decisões de governo, incluindo sua presença em quase todas as reuniões do secretariado. Ambos sempre conversaram uma ou mais vezes por dia, o que também se mantém agora, apesar da licença médica do governador. Vice foi escolhido por afinidade de idéiasNormalmente, os políticos se utilizam de cargos como o de vice para compor coligações e conquistar votos de outros partidos, muitas vezes que pouco têm em comum com o partido principal na coalizão. ?Poucos se lembram disso, mas na eleição de 1998, Covas seguiu a coligação feita pelo PSDB para a Presidência. Foi diferente apenas na escolha do vice: enquanto Fernando Henrique Cardoso disputou a eleição tendo Marco Maciel, do PFL, como vice, Covas optou por escolher alguém do próprio PSDB, que fosse afinado com suas idéias, no caso o Alckmin?, destacou um assessor. Nas conversas, Alckmin relata as ações de governo que estão sendo tomadas, incluindo a inauguração de obras às quais Covas não pôde ir, e também combinam ações futuras, de forma que Covas fique informado sobre o que acontece no governo. Alckmin sempre faz questão de saber a opinião de Covas sobre todos os assuntos envolvendo o governo. Na última semana, Covas também conversou com alguns secretários estaduais. Nesta segunda, por exemplo, ele se reuniu com Rose Neubauer, secretária da Educação; com Marco Vinicius Petreluzzi, da Segurança Pública; Nagashi Furokaua, da Administração Penitenciária; e Fernando Dall´Acqua, da Fazenda. As reuniões começavam com Alckmin e, logo após, o vice-governador ligava para Covas em seu gabinete para saber se ele gostaria de falar com os secretários. Isso tudo, pouco tempo depois de se submeter a mais uma sessão de quimioterapia.AlmoçoPor volta das 12h30, Covas deixa o gabinete para almoçar na ala residencial do Palácio. Depois, dorme por cerca de 30 a 40 minutos. Ele usa a tarde para sair, mas avisa com pouco tempo de antecedência. Quando não sai, fica no gabinete, chamando as pessoas com quem trabalha e disparando ordens, algo muito característico de seu jeito de trabalhar.A doença não mudou seu estilo: continua com seu senso de humor irônico e seu olhar extremamente crítico. Quando viu um álbum de fotos com as obras do governo, apreciou o trabalho, mas reclamou de algumas fotos e sugeriu outras tantas, que achou que deveriam estar inclusas. Reclamou, ironicamente, porque não conseguiu ir até Suzano na terça-feira passada, dizendo a um assessor que ele não sabia fazer roteiros, quando na verdade o problema foi o mau tempo.Estilo ?espanhol-galego"O ponto alto da semana de Covas foi a discussão com manifestantes na inauguração da pista marginal da Rodovia Castello Branco na quinta-feira, dia em que fez sua terceira sessão de quimioterapia. Moradores da região são contrários à cobrança de R$ 3,50 de pedágio para quem usar a nova pista. Durante a inauguração, Covas fez sinais para os manifestantes, passando a mão no queixo, querendo dizer que os eles só tinham papo. Ele também fazia sinal de que não estava ouvindo, virando o ouvido para eles, e chegou a levantar o punho cerrado. ?Aqui, quem quiser paga, quem não quiser anda mais um pouco e retorna sem pagar?, disse, bem ao seu estilo ?espanhol-galego?, conforme ele mesmo define. Covas é um homem simples: adora comer um bife bem passado com fritas, e é fã de pastel. Dona Lila Covas cuida da dieta do governador, apesar de nenhuma ter sido prescrita pelos médicos. Ela chegou a fazer uma feijoada light para Covas, que gosta do prato, mas não pode abusar por conta de seus problemas de saúde. Ele almoça e janta todos os dias e está conseguindo se alimentar melhor por estar licenciado. Antes, almoçava com menos freqüência. O jantar é servido por volta das 19h30. Mário Covas continua assistindo aos canais a cabo que tratam exclusivamente de esportes, uma de suas grandes paixões. Santista, sabe sobre diversos esportes - tanto as regras quanto os esportistas mais destacados. É conhecido por ser um bom jogador de xadrez, jogando tanto em tabuleiro quanto no computador. Nos últimos dias, tem jogado Taipei em seu PC, um jogo japonês de raciocínio. Covas também vê muitos filmes de ação. Mas não é um admirador de telejornais, por exemplo, preferindo acompanhar os noticiários nos jornais diários. Comenta as notícias que gosta e critica quando vê algo sobre ele que não o agrada, principalmente quando a notícia fala de sua doença. Quando viu uma foto sua estampando a capa de um jornal carioca, disparou: ?quem são eles para dizer qual é o meu último ato? Eu decido qual é!? UniãoA família ficou mais unida depois da doença. A filha Renata - que mora em Santos, na mesma casa onde nasceu e em que Covas e Dona Lila viviam - tem ficado quase todo o tempo no Palácio. O genro, Pedro Lopes, trabalha como engenheiro na Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), uma empresa federal, e está de férias, ficando boa parte de seu tempo também no Palácio. Os netos, filhos de Renata e Pedro, também continuam morando com Covas: Bruno, de 19 anos, faz Direito e Economia em universidades de São Paulo. Gustavo, de 16 anos, se prepara em um cursinho para prestar vestibular. O filho Mário Covas Neto, o Zuzinha, mora próximo ao Palácio e se reveza com Renata nos cuidados com o pai. Com isso, estão ajudando também Dona Lila, que às vezes apresenta sinais de cansaço, pois está há dois anos cuidando do marido quase 24 horas por dia. O cerco da família é uma maneira discreta para se vigiar Covas. ?Como ele está em tratamento e tem um espírito meio rebelde, precisa às vezes de um comando, e esse comando não pode vir de uma pessoa subordinada a ele?, brinca uma pessoa que trabalha próxima ao governador. Tudo indica que as visitas às obras vão continuar. Covas já disse que sabe seu limite. ?Ele briga muito antes de um fato consumado, mas quando isso acontece, ele se adapta rapidamente: foi assim com a quimioterapia, foi assim com a cadeira de rodas?, afirma um assessor. Um dos motivos pelos quais dificilmente ele deixará de ir aos eventos oficiais é o contato com o público, e não só pelas já tradicionais discussões com quem não concorda com suas medidas. Em sua visita na Favela México 70, em São Vicente, que foi reurbanizada, Covas disse que o apoio da população tem sido uma coisa muito generosa. ?Em todo o Estado, em todo o lugar que vou. É muita energia, muita força. Já vinha sendo assim e agora está se repetindo?, comentou.

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