Cota para mulheres no Congresso favorece crianças

Ações afirmativas de gênero, como o estabelecimento de cotas para mulheres em instâncias legislativas como o Congresso, também beneficiam as crianças, sustenta um relatório divulgado nesta segunda-feira pela Unicef, o braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a infância. Em países como o Chile e a Argentina, onde a representação parlamentar das mulheres está entre as mais altas do mundo, projetos representando "mudanças radicais" foram aprovados em áreas como a saúde, que beneficiam as crianças, afirmou a agência.As conclusões estão no relatório anual da Unicef sobre a situação das crianças em todo o mundo, que neste ano comemora também os 60 anos de criação da Unicef."Quando as mulheres são mais saudáveis e melhor educadas, as crianças também são. Quando as mulheres têm mais poder de decisão, elas decidem de maneira a beneficiar as crianças", disse o conselheiro de Políticas e Planejamento da Unicef, David Stewart."Não se trata apenas de mulheres protegendo suas crianças, mas de mulheres se envolvendo em assuntos comunitários e apoiando, em geral, temas ligados à infância."Representação política A conselheira-chefe de Governança do Fundo das Nações Unidas para as Mulheres, Anne Marie Goetz, disse que a participação política das mulheres no mundo duplicou na última década, passando de 8% para 16%, em média."Ainda é um número pateticamente baixo", ela avaliou. "Onde há mais de 30% das mulheres na política, em lugares como Ruanda, África do Sul, Argentina e Chile, começamos a ver mudanças radicais em políticas de saúde, por exemplo, que beneficiam as mulheres e também crianças."Na América Latina, Argentina, México e Costa Rica, que adotaram a solução das cotas, encabeçam o aumento da participação política das mulheres nos últimos 15 anos.Entre 1990 e 2005, a representação feminina no parlamente saltou de 6% para 36% na Argentina, de 11% para 35% na Costa Rica, e de 12% para 24% no México.Em Cuba, a proporção passou de 34% para 36% no mesmo período. No Brasil, que neste quesito só não fica atrás da Guatemala na América Latina, a percentagem de mulheres no Congresso Nacional aumentou de 5% para 9% entre 1990 e 2005.Organização comunitária Mas o relatório também guardou elogios para o país. A Unicef elogiou programas sociais como o Bolsa Família - e iniciativas semelhantes no Chile (programa Puente) e no México (programa Oportunidades) - em que governos pagam às mulheres ajudas mensais para reduzir a pobreza.No Brasil, experiências de discussão familiar envolvendo homens resultaram na redução das taxas de violência doméstica - um problema que afeta dezenas de milhares de crianças por ano no país - segundo a agência.Um das iniciativas destacadas pela Unicef foi a da organização não-governamental Viva Rachid, que atende a famílias afetadas pelo vírus HIV no Recife. A ONG media o acesso a serviços e informações relativas à Aids para famílias, assiste crianças soropositivas e também aquelas que perderam os pais em decorrência da Aids.A coordenadora da ONG, Alaíde da Silva, fundou a Viva Rachid depois que negligência de atendimento e abandono resultaram na morte de seu filho Rachid, de um ano, contaminado durante uma transfusão de sangue três anos antes."Foi uma maneira de me sentir viva, porque senão eu estaria morrendo junto com ele", ela afirmou, em um vídeo distribuído pela Unicef.Para a agência, o status das mulheres e a situação das crianças andam de mãos dadas. No contexto das Metas do Milênio, pelas quais os países se comprometem a promover a igualdade dos sexos ao longo da próxima década, "fortalecer as mulheres contribuirá para alcançar outros objetivos (ligados à infância)".

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