Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

Corrupção tomou conta de diretoria de Serviços, diz delator

Augusto Mendonça afirma na CPI da Petrobrás que esquema era difundido na área dominada pelo PT, mas contaminava toda estatal

Daiene Cardoso e Daniel Carvalho, O Estado de S. Paulo

23 Abril 2015 | 10h35

Atualizado às 21h45

Brasília - Executivo que confessou ter participado do esquema de pagamento de propina na Petrobrás, Augusto Mendonça, da Toyo Setal, disse nesta quinta-feira, 23, em depoimento na CPI da estatal na Câmara que a corrupção era “generalizada” apenas na diretoria de Serviços, comandada por Renato Duque. Ele reafirmou que o esquema de propina também era operado na Diretoria de Abastecimento, sob liderança de Paulo Roberto Costa. 

Em cerca de sete horas de depoimento, Mendonça basicamente repetiu o que já havia afirmado em sua delação premiada: disse que as empreiteiras eram “vítimas” de ameaça e por isso participaram do esquema de corrupção. O executivo afirmou ainda que parte da propina que pagou foi em forma de “doação” ao PT, por meio do agora ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto, que está preso preventivamente. 

Em seu depoimento, Mendonça desmentiu o ex-gerente de Engenharia e Serviços da Petrobrás, Pedro Barusco, que afirmou que a corrupção era “generalizada” na estatal. “Na companhia como um todo isso não acontecia”, afirmou. “Dentro da Diretoria de Serviços era generalizado porque eles queriam aplicar em cima de todos os contratos.” Indicado pelo PT para o cargo, Renato Duque ocupou a Diretoria de Serviços no período de 2003 a 2012. Mendonça relatou que, no final da década de 1990, empresas formaram um cartel, o chamado “clube”, para se protegerem e não concorrerem entre si. Já o esquema de pagamento de propinas começou após o ano de 2003, quando Duque e Costa – indicado pelo PP – assumem diretorias da estatal. 


O executivo disse que pagou mais de R$ 100 milhões em propinas – entre R$ 70 e R$ 80 milhões à Diretoria de Serviços e R$ 30 milhões à de Abastecimento. Os repasses eram feitos através de depósitos em contas no exterior, ao doleiro Alberto Youssef e em doações legais ao PT. 

Segundo Mendonça, quem primeiro o procurou para tratar de propinas em tom ameaçador foi o ex-deputado José Janene (PP), morto em 2010. O executivo relatou que as empresas eram coagidas a pagar propinas para não serem “atrapalhadas” pelos diretores da estatal. 

Encontros. Para o executivo, a Petrobrás também foi “vítima” do esquema de corrupção e membros do Conselho de Administração da estatal desconheciam as irregularidades. Ele afirmou ter se encontrado nos últimos anos com a presidente Dilma Rousseff, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. No entanto, negou que tenha tratado do esquema de propina na estatal com os petistas. 

Em delação premiada, Mendonça afirmou ter repassado a João Vaccari Netto R$ 4 milhões entre 2008 e 2011. Ontem ele reafirmou ter repassado dinheiro ao tesoureiro, mas disse que a transação ocorreu de maneira legal. 

Mendonça afirmou que o pagamento foi feito em parcelas e que, quando havia atraso, Vaccari telefonava para cobrar. Ele afirmou que encontrou Vaccari “algumas vezes, talvez dez”, mas disse que o ex-tesoureiro nunca lhe “ofereceu vantagem legal ou ilegal”. 

Sem dar mais detalhes, o executivo confirmou que fez pagamentos à editora Gráfica Atitude – sediada São Paulo e que mantém vínculos com o PT – a pedido do tesoureiro a pretexto de divulgação de publicidade. 

O depoente afirmou ter doado para campanhas de outros partidos, entre eles PSDB e PR, mas ressaltou que, nestes casos, as doações não estavam relacionadas ao esquema de corrupção na Petrobrás. 

A Toyo Setal tenta firmar acordo de leniência em três frentes: no Ministério Público Federal, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e na Controladoria-Geral da União (CGU).

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