Corrupção no ES envolve também empresários e deputados

Se as acusações contra o governador do Espírito Santo forem verdadeiras, existem bons motivos para o pedido do impeachment de José Ignacio Ferreira (PSDB). Ele éacusado de pagar prestações de apartamentos com dinheiro cheques de aliados políticos, conseguir dinheiro irregularmente no banco estadual para financiar sua campanha e de trocar reduções de impostos por propinas de empresários. Se tudo isso for comprovado, Ferreira e sua equipe (o governador nega todas as acusações), podem ter embolsado milhões de reais desde que começou a governar o Estado em outubro de 1998.O pedido de impeachment já foi feito pelo PT e deve seranalisado em agosto, no fim do recesso parlamentar. Essa poderia ser, à primeira vista, a solução para a crise, mas os relatórios pubicados divulgados ontem pela AE mostram que a saída de Ferreira pode não resolver a crise ética e política do Espírito Santo. Os documentos do Banco Central e do Ministério Público Estadual descrevem uma rede de corrupção que não envolveria só Ferreira e seus aliados mais próximos. Neles, está contada a história que se arrasta há muitos anos de uma suposta parceria entre empresários e deputados na tentativa de saquear o Estado.Segundo o relatório do MP, empresários locais enriquecemajudados pelo Fundap (Fundo para Desenvolvimento das Atividades Portuárias), um fundo da Secretaria de Fazenda do Estado que dá empréstimos a importadores com condições excepcionais: longo prazo (até 25 anos) e juros de 1% ao ano. "É um negócio maravilhoso", diz o relatório dos promotores. Em troca disso, o governo teria um esquema de cobrança de propinas, que iriam de cobrança de "ágios" para fazer o credenciamento de empresas no Fundap e "taxas" que iriam para uma fundação fantasma, a Fundação de Integração Social. Envolvidos nesse esquema,estariam vários ex-secretários de governo, como a primeira-dama, Maria Helena Ferreira, seu irmão, Gentil Ruy. Esse esquema, denunciado em abril, é investigado pela CPI.O problema é que o relatório revela ainda que, nesse esquema, o governo não é o único beneficiado. Os deputadosestaduais, diz o texto, receberiam "mesada" de R$ 15 mil cada do empresário Edgard dos Anjos. O dinheiro seria distribuído pelo presidente da Assembléia, José Carlos Gratz (PFL), que ainda pressionaria os deputados contrários ao esquema.A CPI da Propina pode começar a perder credibilidade,uma vez que os próprios investigadores estão sendo investigados. Anjos e Gratz negam as acusações e afirmam que o dinheiro depositado pelo empresário na conta da Assembléia era o pagamento de imóveis leiloados adquiridos pelo empresário. Anjos diz que pretende processar o MP por divulgar "um relatório sigiloso e mentiroso". Ele acredita que o documento é parte de um plano da oposição, orquestrado pelo prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas (do mesmo partido do governador, mas inimigopolítico), e outros.Mas a oposição nega qualquer influência no relatório ediz estar preocupada com a falta de saídas para a crise política no Estado.Segundo a presidente do PT, Iriny Lopes, mesmo que com oimpeachment de Ferreira, os problemas podem não ser resolvidos. "Não temos ilusão que, na linha sucessória, só há mais problemas", diz Lopes. "A única saída são as próximaseleições", completa o prefeito de Vitória.A afirmação do prefeito tem explicação. Com a saída deFerreira, os dois sucessores também são alvos de investigação. O vice Celso Vasconcelos, também do PSDB, tentou desvincular sua imagem da do governador entregando um dossiê com provas contra Ferreira, mas ele mesmo é acusado de estar envolvido no esquema que denuncia. Ele rejeita as acusações e diz que não entende porque o seu nome é citado como recebedor de alguns cheques. "Não sabia de nada disso e foi por isso que, quando recebi o dossiê, enviei imediatamente ao MP", afirma. Ele nega ainda que sua atitude seja oportunista, mas conta que ele e o governador deixaram de se falar no início julho por causa do dossiê.O próximo na linha sucessória é o presidente daAssembléia, que além do relatório do Ministério Público, também já esteve envolvido em vários outros casos, como a CPI do Narcotráfico (segundo sua assessoria, nada foi provado). Ex-banqueiro do jogo do bicho e dono de bingos, Gratz foi até bem pouco tempo o maior aliado do governador.Um outro grupo da oposição, liderado pelo prefeito deVila Velha, Max Filho, parece preferir que o governador continue até ser removido nas próximas eleições porque acredita que um governo de Vasconcelos ou de Gratz seria ainda mais catastrófico. E, além disso, os dois possíveis sucessores contariam ainda com o apoio da maioria dos deputados.Dos 30 deputados estaduais, apenas dois são da oposição,um do PT e um do PDT. "Acho que eles podem até tentar tirar o governador, mas a ordem pouco muda", diz Vellozo Lucas. O prefeito agora está tentando mobilizar o seu partido, o PSDB, sobre a necessidade de intervenção no diretório regional do Estado, controlado por Ferreira. "Acho que é muito significativo o que o PSDB vai fazer com o Espírito Santo porque isso significará de exemplo para o resto do país", diz. A Executiva nacional debate o assunto na terça em Brasília, onde prefeito e governador deverão travar mais um confronto.Ferreira acha que não haverá intervenção e quesobreviverá aos acontecimentos porque é inocente e tem umpassado político respeitado.Depois de quase quatro meses de CPI, recheada de novasacusações, Ferreira diz que nunca pensou em renunciar ou seafastar do cargo por um período. "Fui eu mesmo que pedi a CPI. Se algo for provado, serei o primeiro a tomar providências", afirma.

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