Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Corrupção no Brasil foi quase um plano de governo, diz Barroso

Em evento nos Estados Unidos, ministro do STF afirmou que irregularidades envolvendo Petrobras e BNDES foi plano de governo; sistema penal brasileiro, segundo ele, foi seletivo para punir pobres e perdoar 'colarinho branco'

Ricardo Leopoldo, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2017 | 17h42

WASHINGTON - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, afirmou, nesta sexta-feira, 8, que a "oligarquia" brasileira "saqueou dinheiro público do Estado". Em evento na capital dos Estados Unidos, Barroso também disse que a corrupção tornou-se um meio de vida.

"É difícil combater o pacto oligárquico entre políticos, empresários e burocratas", disse em palestra no Brazil Institute no Wilson Center em Washington.

Barroso também afirmou que a corrupção se tornou um meio de vida para muitos no Brasil, inclusive como forma de fazer negócios. "A corrupção no Brasil envolvendo Petrobras e BNDES foi quase um plano de governo", acrescentou.

O ministro do STF disse que o sistema penal foi seletivo para punir os pobres e perdoar os criminosos do "colarinho branco". Ele entende que, apesar de a Lava Jato ter três anos, "muitas práticas de corrupção continuam no País".

"Uma foto do Brasil pode dar a impressão que o crime compensa, mas não é verdade. Uma semente de honestidade e integridade foi plantada", ponderou o ministro, que citou a impunidade e o sistema político como as causas da corrupção no Brasil.

Barroso também afirmou que está "convencido que as coisas não serão mais as mesmas". "A luta contra a corrupção envolve mudanças em atitudes, leis e casos legais", disse. Ele lembrou que, quando ocorreu o "Mensalão", a sociedade estava muito mobilizada contra corrupção. E ele lembrou que a "Operação Lava Jato é uma continuação desta atuação contra corrupção".

"Poucos países no mundo fizeram como o Brasil para atacar corrupção com Lava Jato", disse. E elogiou: "A Lava Jato foi realizada com um bravo juiz e uma brava equipe de investigação".

Embora veja o sistema político e partidário como "muito caro e pouco representativo" na origem da corrupção, Barroso considerou em sua palestra no Wilson Center que criminalizar a política, "base da democracia", não é uma boa ideia. "Não podemos demonizar a política, nem politizar o crime", assinalou.

Barroso disse não ver razão para se temer o curso das investigações da operação Lava Jato e considerou que há uma grande demanda no País por pessoas honestas. Ele criticou ainda políticos que cobram porcentagens em empréstimos de bancos públicos. "É crime", afirmou.

O ministro do STF voltou a dizer que alguns políticos e empresários não querem ser responsabilizados por crimes que cometeram, ao tratar das mudanças que estão acontecendo no Judiciário. "A lógica do juiz tem que ser o que é correto", afirmou em Washington.

Segundo Barroso, o momento do Brasil é difícil, mas o País está na "direção correta" para se tornar uma nação melhor.

O ministro do STF lembrou, durante a palestra, que o atual Presidente Michel Temer e os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff foram denunciados ao Supremo por corrupção passiva. Em seu discurso, Barroso também mencionou que vários políticos, entre eles ex-governadores, estão presos. "A corrupção no Brasil foi ampla", declarou.

Otimisto. O ministro afirmou, contudo, que está otimista com o País. "Há 40 anos, discutíamos na escola de Direito como combater a tortura durante o regime militar", disse. "Hoje discutimos como combater a corrupção e elevar as práticas públicas" no País, segundo afirmou Barroso.

Ele disse, em sua palestra, que o Brasil passou por 30 anos de "estabilidade institucional", com estabilidade monetária e inflação sob controle, e que mais de 30 milhões de pessoas deixaram a pobreza.

"É muito encorajador que, em uma geração, derrotamos a ditadura, temos democracia e inflação baixa", concluiu.

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