Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Corrupção e ‘Fora PT’ unificam protestos

Perfil dos manifestantes era variado, mas todos pediam fim da impunidade e saída do partido

Ricardo Galhardo e Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2015 | 21h19

São Paulo - O alvo da maioria absoluta dos manifestantes que estiveram neste domingo, 15, na Avenida Paulista foi a corrupção. Muitos também reclamaram da situação econômica e da “incompetência” do governo Dilma Rousseff. Grande parte pediu o impeachment de Dilma mesmo sem saber muito bem o que isso significa. Uma parcela pequena, mas expressiva defendeu a intervenção militar e foi criticada. Havia ainda alguns radicais separatistas, integralistas e até skinheads. O perfil era variado, mas uma frase unificou o protesto: “Fora PT!”

Por volta de 13h, centenas de motociclistas atravessaram a Paulista entre os manifestantes em motos grandes e caras, como Harley Davidson e BMW. Todos aplaudiram e aceleraram com força quando um manifestante levantou uma faixa sobre o aumento da gasolina. “Eu nunca gostei do PT, mas a corrupção chegou a um limite abominável”, disse Margarete Nunes, de 46 anos, que ia na garupa da moto Triumph do marido, o empresário Marcos Nunes, de 53.

Depois das 14h é que a avenida foi, de fato, tomada, com gente chegando de carro e de metrô. O verde e o amarelo predominaram, apesar de que, embora a manifestação tenha sido pacífica, pessoas vestidas de vermelho eram hostilizadas. Muitas camisas da seleção brasileira serviram de uniforme. A maioria era de famílias brancas de classe média. “Não é só aqui. Nas faculdades e nos ambientes elitizados geralmente têm poucos negros”, disse Mylene Souza, de 33 anos, uma das poucas negras vistas no ato. 

Além do onipresente “Fora PT!”, as palavras de ordem variavam conforme a posição ideológica dos manifestantes. “Fora Dilma”, “Verde e amarelo é a cor do país, não o vermelho” e “Eu vim de graça” – referência a militantes pagos pela CUT na sexta-feira – foram as mais usadas, mas também houve quem usasse palavrões contra Dilma e chamasse o ex-presidente Lula da Silva, um dos alvos preferidos, de “vagabundo” e “cachaceiro”. A reportagem não registrou menções aos escândalos de corrupção envolvendo o governo estadual ou à crise hídrica.

Nos oito carros de som, as músicas “Brasil”, de Cazuza, e “Que País é Este”, da Legião Urbana, foram os hits. Embalado por uma garrafa de catuaba, o vendedor Jonathan Vieira, de 23 anos, da Mooca, atraiu curiosos enquanto cantava um funk cujo refrão era “Mundo, mundo, o PT é imundo”. 

Já o cantor Chico Buarque de Holanda foi alvo da publicitária Renata Haberland, que levou o cartaz: “Cálice Chico”, trocadilho com a música cujo refrão “Cale-se” foi um hino em defesa da liberdade de expressão durante a ditadura militar. “Não estou nem aí. É para calar a boca do Chico mesmo”, disse ela.

Também havia faixas com ataques a programas sociais. “Chega de sustentar quem não quer trabalhar”, lia-se em uma delas. “Investiguem a família do Lula”, via-se em outra. “Obrigado PT pelo 11 de setembro” também chegaram a escrever.

Famílias. Havia muitas famílias. A administradora Silvia Rioli, de 65 anos, foi com sete dos oito filhos na manifestação – o outro está nos Estados Unidos e não pôde comparecer. “Viemos para as ruas com todo mundo, assim como foi nas ‘Diretas-Já’”, disse ela, que diz ter visto coisas em comum entre os dois episódios. “Lá atrás, também começou com manifestação grande e foi crescendo. Essa será só a primeira”, diz. 

A filha Mariana Rioli, de 34 anos, que é arquiteta, diz ser contra o impeachment. No peito, uma placa pedindo voto distrital. “Esse movimento é para começar as discussões dos rumos do País. Essa ganância pelo poder populista precisa ser deletada”, diz ela. “Não sou a favor do impeachment, quero que a Dilma arque com toda essa política de 12 anos. O próprio Bolsa Família, que não sou contra, se tornou uma forma populista para se reeleger.” 

“Veteranos” das manifestações pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello voltaram às ruas, agora levando os filhos a tiracolo. “Cidadania se ensina desde criança”, disse o médico João Guerra, que era “cara pintada” nos protestos contra Collor. 

Enquanto se escondia da chuva, a engenheira Cristina Ochoa, explicava ao filho Rodrigo, de 7 anos, que “partido político é um grupo de pessoas que se une para defender alguma coisa”. 

Manifestantes moderados torciam o nariz para os radicais defensores da volta dos militares ao poder, que eram minoria mas fizeram barulho. 

Ao som de uma gaita de foles, a extinta Tradição Família e Propriedade (TFP) também marcou presença na manifestação. O instituto Plínio Corrêa de Oliveira coletou assinaturas a favor do impeachment e contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já o desenhista industrial José Fogaça e o filho Felipe, de 18 anos, carregavam uma grande bandeira de São Paulo. Eles integram o movimento separatista paulista.

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