Corrida por mais recursos infla ''embaixadas'' dos Estados no DF

Representantes criaram até um grupo comum e uma câmara para destravar os contenciosos com a União

Julia Duailibi, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

De olho nos recursos federais e embalados pela propaganda governista do PAC, os Estados turbinaram suas representações em Brasília. Escritórios transformaram-se em secretarias de Estado e tiveram suas estruturas encorpadas - até com estúdios de TV. Os "embaixadores" criaram um grupo comum e uma câmara para destravar os contenciosos envolvendo Estados e União. Essas representações, no entanto, acabam servindo também para abrigar aliados, parentes e ex-mulheres.   Ouça depoimento da repórter Julia DualibiNa terça-feira, o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), inaugura a Secretaria de Representação de Brasília, para a qual nomeou, em janeiro, seu irmão, o psicanalista Eduardo. Questionada como nepotista no Supremo Tribunal Federal, a nomeação foi considerada legal por ser cargo político.Eduardo Requião reformou o escritório de dois andares, que ganhou três estúdios de televisão para produzir dois programas semanais e uma inserção diária sobre política, na TV Educativa do Paraná. Espalhou bromélias pelas salas, que ganharam móveis novos e modernos num estilo clean. "É cada vez maior a centralização em Brasília. O PAC é um exemplo disso. As representações estão virando secretarias indispensáveis", disse. A nova estrutura, completou, vai consumir R$ 100 mil por mês com 25 pessoas atuando, o dobro de gente e de recursos que consumia antes. Decreto 4.797/09 do governador Requião, de quarta-feira passada, determinou que servidores, "quando se deslocarem a Brasília em objeto de serviço, deverão obrigatoriamente se dirigir ao escritório de representação do Paraná, a fim de prestarem informações ao escritório e ao plantão da TV Educativa." Após terem criado, há dois anos, o Fórum de Representantes de Estados em Brasília (Fonare) para articular melhor a interlocução com o governo federal, os "embaixadores" lançaram a Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal, visando a dirimir empecilhos burocráticos na assinatura de convênios. Agora está em análise a criação de uma revista sobre as iniciativas do grupo.LABUTA Praticamente todos os Estados têm estrutura em Brasília - com exceção do Espírito Santo -, que chega a consumir até R$ 190 mil por mês, caso da Secretaria de Representação do Tocantins, que tem 59 servidores, incluindo os funcionários da Defensoria Pública e da Procuradoria-Geral do Estado. Seis representações transformaram-se em secretarias de Estado. Duas são superintendências. Um dos Estados mais pobres do País, o Maranhão possuía há até dois meses duas representações: uma para Wagner Lago, irmão do ex-governador Jackson Lago (PDT) e outra para uma ex-mulher do ex-governador José Reinaldo Tavares.Com a cassação de Lago e a posse de Roseana Sarney (PMDB), em abril, uma das representações foi fechada. Na outra, assumiu o ex-senador Francisco Escórcio, que já foi acusado de ter espionado parlamentares enquanto assessor da presidência do Senado, em 2007."Eu conheço o que é isso (a política em Brasília). Nós temos 217 municípios. Os prefeitos não têm estrutura. São quase todos semianalfabetos. Se não forem ao escritório de representação, vão a um lobista", disse Escórcio. Outro secretário representante recém-empossado é o ex-deputado Edme Tavares, do PMDB do governador José Maranhão, que assumiu em fevereiro após cassação do tucano Cássio Cunha Lima. Tavares destaca a importância de o cargo ser político, principalmente as "amizades" que tem em Brasília. "A vivência política me dá uma oportunidade de prestar um serviço melhor, num momento em que aumentou a importância da representação junto aos ministérios", afirmou.O superintendente da representação do Piauí, Roberto Gonçalves, diz ter dobrado o número de empenhos para o Estado logo que assumiu em 2003 - o governador Wellington Dias é do PT, partido do presidente Lula. A estrutura, que servia apenas para receber o governador, passou a contar com orçamento anual de R$ 1,2 milhão e 18 técnicos."Estados menores precisam da articulação", disse. Um dos primeiros Estados a ampliar a estrutura foi o Rio Grande do Sul. Em 2007, a governadora Yeda Crusius (PSDB) inaugurou a "embaixada gaúcha" numa casa de 800 metros quadrados no lago sul, bairro nobre da cidade. À época, foi colocado no posto Marcelo Cavalcante, que saiu após envolvimento no escândalo de caixa 2 do Estado. Goiás também mantém uma ampla representação no bairro, embora sua capital esteja a cerca 200 km de Brasília. O escritório fica numa luxuosa casa e paga R$ 14 mil mensais de aluguel. De acordo com informações da superintendência, apenas 12 funcionários trabalham no local, que foi criado para "prestar o apoio necessário" às secretarias que buscam projetos com a União.Mesmo em tempos de PAC, Estados maiores, como São Paulo, Minas e Rio, não ampliaram suas estruturas, embora mantenham "embaixadores" de peso. O escritório paulista é tocado por Eduardo Graeff, ex-secretário-geral da Presidência de FHC. O mineiro, por Henrique Hargreaves, ex-ministro da Casa Civil de Itamar Franco. Já o do Rio tem como chefe um engenheiro. Chegou a ter 48 pessoas. Hoje são apenas 16.

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