Corregedoria recebe queixas e denúncias

Pedidos de emprego acompanhados por currículos, relato de problemas pessoais, mensagens de solidariedade e estímulo, cobranças e denúncias de descasos cometidos em administrações municipais e estaduais. Uma rápida leitura dos mais de 300 e-mails recebidos pela corregedora-geral da União (governo@brasil.gov.br), ministra Anadyr de Mendonça Rodrigues, revela uma certa carência de setores da sociedade - que a têm procurado como quem busca um ombro amigo em que depositar sua indignação e um bom ouvido para cobrar medidas do governo - e que ainda persiste uma certa confusão sobre o que ela vai fazer, efetivamente, à frente do órgão."Tenho um pequeno hotel que emprega sete pessoas", diz um interlocutor virtual. "Tentei um empréstimo para aumentá-lo nos bancos pelo BNDES e Brasil Empreendedor e não consegui", conta. "Fiquei sabendo que preciso dar uma porcentagem (10%) a um político influente para conseguir esse crédito". O cidadão relata que, na sua cidade, as garantias exigidas pelos bancos para a concessão de crédito ao microempreendedor tornam inviáveis as chances de conseguir financiamento e que, muitas vezes, o dinheiro federal é usado por quem não precisa. "Não adianta o governo fazer bons projetos e não fiscalizar", avalia. "Vossa Excelência parece ser uma luz no fim do túnel."CondutaUm funcionário aposentado do Banco do Brasil escreve sugerindo que a ministra aproveite a experiência e disposição física de pessoas como ele para compor sua equipe. "Pense nisso", pede. Há 20 dias, quando tomou posse, Anadyr Rodrigues deixou claro que pretende transformar a internet em sua principal aliada para o trabalho de fiscalização da conduta moral e ética do poder público. "Nos primeiros dias, foi uma invasão, havia uma demanda reprimida", comentou sobre as dezenas de e-mails que recebeu logo após tomar posse. "A população sentiu que terá um canal de comunicação", avaliou Anadyr. Sua expectativa, avisou, é mais do que receber denúncias: ter um mecanismo para conhecer o que pensa e deseja a sociedade, interagindo como uma espécie de ombudsman da atuação do governo.O uso de meios virtuais para troca de informação é uma das novas bandeiras do governo federal, endossada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. "O governo eletrônico é um instrumento da democracia e o mais importante é universalizar o acesso", disse o presidente. Algumas denúncias enviadas pela internet estão sendo avaliadas pela Corregedoria-Geral da União, mas fogem à sua área de atuação. Em uma delas, um internauta lança suspeitas sobre a construção de um aeroporto no município de Juazeiro do Norte. "Vossa senhoria sabe ou pode descobrir a verdade sobre essa construção?", pede.Em outro e-mail, um interlocutor questiona a lisura de convênios firmados entre a prefeitura de Várzea Paulista e o Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp), extinto no ano passado por causa da comprovação de práticas irregulares. Em outra mensagem, um engenheiro denuncia o que qualifica como o uso da sede do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), em São Paulo, para fins políticos. "Repito que o principal são as centenas de contratações sem concurso público", escreve. "Aguardo providências."Dias após ter sido empossada, Anadyr Rodrigues recebeu um e-mail com denúncia de apropriação indébita de área controlada pelo governo do Estado de São Paulo, onde deveria ter sido construída a Base Aérea Naval. A infração estaria sendo feita por meio do uso de documentos falsos.Algumas pessoas escreveram à corregedora exigindo investigações em torno do que chamam de indícios de enriquecimento ilícito do ex-secretário-geral da Presidência, Eduardo Jorge Caldas Pereira. Os e-mails não trazem nenhum fato, apenas reproduzem reportagens publicadas pela imprensa sobre o caso.SapatosO endereço eletrônico da Corregedoria também acaba sendo usado por membros do Ministério Público e outros órgãos correlatos para fazerem chegar à ministra suas ponderações sobre os mais diversos assuntos. Em um deles, um procurador questiona os sapatos que Anadyr costuma usar nas solenidades e faz considerações sobre sua aparência. Em outro, o procurador Luís Francisco de Souza faz uma avaliação da criação do órgão. "Eu não ligo", garantiu a ministra.

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