Corregedor vai apurar venda de hábeas por juízes

Além do inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), o corregedor-geral da Justiça Federal, Aloísio Palmeira Lima, vai investigar se juízes e desembargadores participaram de um esquema de comércio de habeas-corpus para beneficiar traficantes.As suspeitas de envolvimento de integrantes do Judiciário com o esquema para ajudar bandidos surgiram durante a Operação Diamante da Polícia Federal.O filho do desembargador do Tribunal Regional Federal (TRF) Eustáquio Silveira, Igor Silveira, é suspeito de intermediar as negociações. Ele aparece em diversas gravações feitas pela PF, tanto em contato com o deputado federal Pinheiro Landim (PMDB-CE) como com advogados ligados a deputados e traficantes.As mesmas escutas telefônicas - autorizadas pela Justiça - mostram uma estranha relação entre a advogada que impetrou um habeas-corpus em favor dos traficantes Ecival de Pádua Santomé e Amarildo Oliveira Beirigo e a juíza Vera Carla Cruz, mulher de Eustáquio. Conversando com Igor, a advogada parece estar apavorada com algum fato que estava para ocorrer.Segundo investigadores, ela teria assinado a ação a pedido de outras pessoas. Na mesma ligação, revela que "morre de medo de fuxico"."Prefiro ficar pobre a vida inteira a entrar numa confusão, ainda mais para uma pessoa que eu quero bem igual à Verinha", afirma a advogada. Igor aconselha que ela não cite nomes e não converse com ninguém sobre o assunto.Vera Carla não quis falar sobre o assunto, assim como o marido, Eustáquio Silveira. A foto do desembargador foi retirada da página do TRF na internet.Nesta sexta-feira, o desembargador federal Fernando Tourinho Neto e o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Vicente Leal, citados na imprensa como suspeitos de participar do esquema, distribuíram notas oficiais nas quais repudiam quaisquer ligações com a suposta venda de habeas-corpus.Tourinho disse que o envolvimento do seu nome no esquema é uma "fatalidade". Já Vicente Leal afirmou que "ninguém está livre de mentiras de lobistas". Um dos juízes a votar favoravelmente à concessão de habeas-corpus ao traficante Leonardo Dias de Mendonça, Tourinho Neto também convocou nesta sexta-feira os jornalistas para uma entrevista coletiva, na qual afirmou que, se alguém pedir, ele fornecerá informações bancárias e fiscais.O início da entrevista atrasou mais de uma hora porque os desembargadores do TRF se reuniram previamente para discutir o problema. "Tive, de uma hora para outra, o meu nome enlameado", afirmou Tourinho Neto. "Isso porque dois bandidos falaram o meu nome", acrescentou. Ele explicou que a decisão unânime, concedendo habeas-corpus a Mendonça, foi tomada pela turma de férias do TRF, da qual fez parte.Após a entrevista de Tourinho, o presidente do TRF, Catão Alves, leu uma nota oficial na qual repudia a forma como a imprensa vem tratando o caso. "Por obrigação legal e funcional que me impõe a Lei Orgânica da Magistratura, recebo a todos os que me procuram no gabinete", justificou o ministro do STJ Vicente Leal, em outra nota oficial. "Não conheço, em pessoa, criminosos."

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