Corpos de índios demoram até 12 dias para voltar a aldeias

A Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (Foirn) denunciaou a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), nesta terça-feira, de enviar caixões com indígenas mortos via barcos, de Manaus para São Gabriel da Cachoeira, a 858 quilômetros de Manaus, fazendo com que os corpos demorem até 12 dias para chegar a suas aldeias. Os indígenas vêm para Manaus para tratamento médico, que é de responsabilidade da Funasa, na Casa de Saúde Indígena, no quilômetro 25 da estrada AM-10, a Manaus-Itacoatiara. "Se morrem, a família tem duas opções: ou são enterrados em Manaus ou voltam para São Gabriel de barco", contou Janilson Padilha, da Foirn.Em outubro, segundo Padilha, Antonio Mendes, de 29 anos, da etnia tucano, veio para Manaus para tratamento médico. No dia 12 de novembro, morreu de ataque cardíaco no Hospital Adriano Jorge em Manaus. Só chegou a São Gabriel 12 dias depois. Ricardo Peixoto, de 48 anos, da etnia baniwa, chegou a Manaus em junho para tratamento médico e morreu de pneumonia no dia 17 de novembro. Depois de o corpo permanecer por cinco dias em Manaus, a Funasa o enviou para São Gabriel de barco, numa viagem que durou três dias. Até o enterro de Peixoto, em sua comunidade da região de Pari-Cachoeira, foram mais cinco dias de barco. De acordo com Padilha, o desespero dos familiares de indígenas que vêm para tratamento em Manaus é grande. "Além de não receberem informações sobre o tratamento, se morrem eles têm de passar por esse calvário para simplesmente ter o direito de enterrar seus parentes. Há indígenas que não entendem porque o caixão vem lacrado e querem abrir, ver se é mesmo o parente ali, é um sofrimento. A cultura indígena não vela os mortos mais que um dia", conta. Segundo o administrador da Funasa no Amazonas, Francisco Aires, "alguns" indígenas mortos são enviados de barco por contenção de despesas. "Não temos o número de indígenas enviados dessa forma, mas o que não podemos é fretar um avião a R$ 10 mil até São Gabriel e R$ 4 mil até uma aldeia para transportar esquifes", disse. Aires afirmou que dos dois aviões de carreira que fazem vôos semanais para São Gabriel, apenas um tem espaço para levar caixões. "E quase sempre estão com o compartimento de carga lotado, daí a necessidade de ter de alugar um avião, o que é impossível".O administrador informou ainda que, embora seja uma viagem "mais cara de barco", ultimamente os corpos de indígenas mortos em Manaus estão sendo enviados em um navio chamado "expresso" que faz em 16 horas a viagem para São Gabriel, que é feita normalmente em três dias. "Embora não seja o ideal, que seria os corpos seguirem sempre de avião, é a alternativa", afirmou. Aires explicou ainda que a demora que os familiares não entendem logo depois das mortes são da "burocracia normal". "O corpo tem de ir ao IML, fazer autópsia, tem de ser embalsamado e o caixão lacrado para evitar a decomposição, porque não há a certeza de quando segue para o município. Isso tudo demanda tempo". Até o início deste ano, a Foirn era a conveniada que gerenciava os recursos da Funasa na prestação de serviços junto aos povos indígenas do Alto Rio Negro, onde São Gabriel concentra o maior número de aldeias. Cabia à Foirn administrar o transporte de corpos até o município, feito exclusivamente de aviões, segundo o órgão. Desde agosto, o gerenciamento ficou com a própria coordenação do Amazonas da Funasa. Segundo a Foirn, há hoje 26 pacientes indígenas de São Gabriel hospedados na Casai de Manaus para tratamento de saúde.

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