Marcos D'Paula/AE
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Corpo de ex-deputado Márcio Moreira Alves é cremado no Rio

Pivô da decretação do AI-5 morreu ontem, aos 72 anos, em decorrência de um AVC sofrido em outubro

Daniela do Canto, da Central de Notícias, e Márcia Vieira, de O Estado de S. Paulo,

04 de abril de 2009 | 12h51

O corpo do ex-deputado federal Márcio Moreira Alves está sendo velado desde às 9 horas deste sábado, 4, no Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no Centro da cidade. Alves, pivô da decretação do Ato Institucional Número 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, morreu às 18h25 de ontem, aos 72 anos. Ele estava internado havia cinco meses no Hospital Samaritano, no Rio, devido a um acidente vascular cerebral sofrido em outubro de 2008.

 

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Antes de o corpo seguir para o Cemitério do Caju, onde foi cremado, Frei Betto leu um texto em homenagem ao amigo de muitos anos.

 

Velhos amigos e poucas autoridades estavam presentes no velório. O vice-governador, Luiz Fernando Pezão, anunciou, durante o velório, luto oficial de três dias no estado. O ex-governador da Bahia e ex-ministro da Previdência, Waldir Pires, de 82 anos, se emocionou ao falar do velho amigo. "Nos encontrávamos em Paris durante o exílio e continuamos convivendo na volta ao Brasil. Márcio foi uma figura muito importante da segunda metade do século 20", disse. "Ele participou da batalha, que nós lutamos e perdemos, mas que continua hoje, de se construir um país decente."

 

Waldir Pires lembrou do famoso discurso que Moreira Alves, então deputado federal, fez no Congresso em 1968 e que acabou sendo usado como pretexto pelo governo militar para decretar o AI-5 e cassar-lhe o mandato. "Márcio teve coragem. Ele não era um radical, tinha um pensamento moderado. Mas seu discurso foi decisivo para mostrar que a democracia não era democracia. O discurso fez cair a máscara da ditadura."

 

Os ex-deputados José Frejat, 85 anos, e David Lerer, 71 anos, que conviveram com Marcito, como era chamado, nos agitados anos 60 e 70, ressaltaram que o amigo era leal, corajoso e honesto. "Já não se fabricam homens como ele. Hoje se tapa o nariz para a política. Nós não tínhamos a mordomia que os políticos de hoje têm", ressaltou Frejat. Lerer também frisou a integridade de Moreira Alves. "Ele é o símbolo de uma época em que os políticos se moviam por ideias."

 

Discurso de protesto

 

No discurso que levou à decretação do AI-5, Márcio pediu que, em protesto contra os espancamentos de manifestantes, os civis boicotassem os desfiles do Dia da Independência promovidos pelo governo. Foi no chamado pequeno expediente, o Pinga-Fogo, no qual os deputados faziam comunicações rápidas.

 

No pronunciamento - um dos muitos que parlamentares fizeram para se solidarizar às manifestações estudantis -, o deputado pediu que namoradas de oficiais e cadetes boicotassem os militares. "Seria preciso fazer hoje no Brasil com que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada, à porta de sua casa, àqueles que vilipendiam a nação", afirmou.

 

Anos depois, restabelecida a democracia, contou o que o inspirara. "Foi um discurso de cinco minutos, baseado na história da Lisístrata, uma peça sobre as mulheres de Atenas, que se recusam a encontrar com os maridos enquanto eles não voltassem e lutassem contra Esparta", contou, em depoimento no documentário O Dia que Não Existiu, da TV Cultura e TV Câmara. "Não podia imaginar que fosse ter a importância que lhe deram."

 

Afastara-se da militância política desde os anos 80, depois de não conseguir voltar à Câmara dos Deputados em 1982, e, há alguns anos, com problemas de saúde, deixara a atividade jornalística. Márcio foi uma das estrelas da oposição à etapa inicial do regime militar, mais branda. Eleito em 1966 pelo MDB, quando era jornalista do jornal Correio da Manhã, depois de denunciar a ocorrência de torturas contra oposicionistas, destacou-se pela eloquência e combatividade na Câmara.

 

Texto atualizado às 16h14

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