Coronel responsabiliza Almir Gabriel por mortes em Carajás

No primeiro dia do julgamento dos 164 policiais militares acusados de matarem 19 sem-terra em um confronto em Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996, o coronel Mário Colares Pantoja afirmou que a ordem para a operação foi dada pelo governador Almir Gabriel (PSDB), mesmo sabendo que o batalhão de Marabá, que executou a desobstrução da rodovia PA-150, não tinha condições para este tipo de ação. No primeiro julgamento, em 1999, Pantoja evitou fazer acusações ao governador. "Pedi para mandarem o pelotão de choque, mas o comando da PM disse que o governador não iria gastar nenhum tostão mandando a tropa", afirmou Pantoja. O julgamento começou com cerca de duas horas e meia de atraso, o que poderá estendê-lo para além dos quatro dias calculados pelo juiz Roberto Moura. Inicialmente, apenas estudantes de Direito e pessoas envolvidas com o júri tinham autorização para entrar na sala do júri, mas depois a imprensa teve o acesso liberado. O Movimento dos Sem-Terra (MST) não mandou representante para o julgamento, nem mesmo fez qualquer ato em frente ao Tribunal de Justiça, como em 99, quando levou cerca de cinco mil pessoas à Belém. Hoje, além de Pantoja, começou a ser julgado o capitão Raimundo Almendra Lameira, que também estava à frente de uma das tropas que entrou em confronto com os sem-terra em Eldorado do Carajás. O major José Maria Pereira Oliveira, será levado à júri somente na terça-feira. Além dos três oficiais, serão julgados outros 146 tenentes, sargentos e praças que estavam na operação. Pantoja afirmou que evitou cumprir as ordens, mas foi pressionado a isso. "Quando recebi o aviso para ir ao local, disse ao então comandante da PM - coronel Fabiano Lopes -, de que não tínhamos preparo para conter distúrbios. O comandante respondeu que tinha que ir, pois era uma determinação do governador", afirmou o coronel. A estratégia da defesa é tentar, ao máximo, excluir a responsabilidade de Pantoja, jogando a culpa pelo confronto em Almir Gabriel, no comando da PM e no major Oliveira, que comandava um outro grupo de policiais e estava do lado oposto ao da tropa do coronel, que contou, ainda, que chegou a telefonar para Belém para informar sobre as reivindicações dos sem-terra - dez toneladas de alimentos e carros para transportá-los a outras cidades - mas o governador não teria aceito negociar. Mesmo depois do confronto, segundo ele, a ordem era a mesma: "Se houver nova obstrução (da estrada) você segue de novo com a tropa." Em seu depoimento, em 99, Almir Gabriel negou que tivesse dado ordens para que a PM desobstruisse a rodovia PA-150, o principal motivo do confronto com os sem-terra. O governador afirmou que a tropa agiu erradamente, já que a questão agrária do estado era tratada como problema político e nem mesmo o secretário de Sgurança, Paulo Sette Câmara, tinha autonomia para negociar. "Não tinha condições de saber se o batalhão de Marabá tinha ou não condições de fazer a desobstrução", afirmou Almir Gabriel. O governador não foi chamado como testemunha, como no júri anterior. Badan x MolinaUm dos momentos mais importantes do julgamento acontecerá entre amanhã e quinta-feira, quando estarão frente à frente, o perito Badan Palhares, arrolado pela defesa dos réus, e o foneticista Ricardo Molina, chamado pela acusação. Cada um deles produziu laudos diferentes para provar que um dos lados deu o primeiro tiro que resultou no confronto. Tanto o promotor Marco Aurélio Lima do Nascimento, quanto o advogado Américo Leal acreditam que os laudos possam impressionar as quatro mulheres e os três homens que fazem parte do corpo de jurados. Apesar de ser o maior julgamento da história do País - são 149 réus e um processo de oito mil páginas - o próprio MST diminuiu a importância do júri. A Polícia Militar mobilizou cerca de 400 homens em torno do Tribunal de Justiça, que não tiveram nenhum incidente para resolver, a não ser o major Pantoja Filho, que comanda os policiais, que teve dificuldades para explicar que, apesar do nome, não tem parentesco com o coronel Pantoja, que está sendo julgado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.