Coronel admite ter participado de sessões de tortura no DOI-Codi

Oficial da reserva Walter Jacarandá prestou depoimento à Comissão da Verdade do Rio e negou ter participado de morte de dirigente comunista

Atualizado em 15.08 às 10h45, Wilson Tosta - O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2013 | 14h36

Pela primeira vez desde o início das investigações da Comissão Nacional da Verdade, um ex-integrante de órgãos de repressão durante o regime militar (1964-85), o coronel bombeiro da reserva Valter da Costa Jacarandá, admitiu ontem publicamente ter participado de sessões de tortura de presos políticos.

Em sessão conjunta da CNV com a Comissão Estadual da Verdade na Assembleia Legislativa do Rio, o coronel Jacarandá reconheceu que, nos interrogatórios no DOI-Codi no 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, no início dos anos 70, não aconteceram só "excessos" - palavra que usava inicialmente. Também confirmou que militares e policiais citados na reunião como torturadores conduziram interrogatórios com espancamentos, choques elétricos, afogamentos e outros abusos.

No início da sessão houve tumulto quando um grupo de jovens iniciou uma manifestação em plenário. Houve empurra-empurra com seguranças - mas logo a situação se acalmou.

"O excesso é a tortura, e a tortura é o excesso", esclareceu Jacarandá, depois de instado pelo presidente da Comissão Estadual da Verdade, o advogado Wadih Damous, a explicar o que queria dizer com "excesso". O depoimento de Jacarandá foi marcado por evasivas, idas e vindas em que às vezes dava informações aparentemente contraditórias. Usou expressões como "não lembro" (quando Damous lhe perguntou quem ele havia interrogado), "como foi descrito" (ao responder sobre como eram os interrogatórios, que ex-presos políticos definiam como violentas sessões de tortura), "tudo o que foi nomeado aqui" (confirmando as descrições das sevícias).

O depoente, no entanto, disse não ter informações sobre o principal objeto da sessão: a morte, sob tortura, e o desaparecimento de Mário Alves, do PCBR, em janeiro de 1970, episódio de que diz não ter participado.

"Quem o senhor torturou?", perguntou Damous. "Não lembro", respondeu Jacarandá. Diante da insistência de Damous para que detalhasse os interrogatórios, Jacarandá disse que neles ocorria "tudo o que o Álvaro Caldas acabara de descrever". Jornalista e professor, o ex-preso político contara minutos antes que, entre outras torturas, levou choques elétricos de uma maquininha cuja manivela era girada pelo então major e hoje coronel da reserva dos bombeiros.

‘É fato’. Damous insistiu em detalhes: "Por exemplo, choque elétrico é fato?", perguntou. "É fato", disse Jacarandá. "Pau de arara é fato?", prosseguiu Damous. "É fato", confirmou o coronel. "Empalamento é fato?", voltou o advogado. "Nunca, estou sabendo disso agora", afirmou o depoente.

A ameaça de repetição do suplício (empalamento), que matou o dirigente do PCBR, prém, era uma ameaça recorrente aos presos políticos da Barão de Mesquita, segundo alguns depoentes. A professora Maria Dalva Leite de Bonet contou que, depois de pendurada de cabeça para baixo, com fios elétricos presos ao corpo, ouviu uma voz "cavernosa", talvez via alto-falante, dizendo-lhe que era impossível tentar resistir, já que Alves tentara e "não dera".

Depois de descrever o empalamento do dirigente do PCBR, a voz perguntou: "Quer o mesmo tratamento, sua puta?" Outro que sofreu a ameaça foi o economista Sylvio Renan de Medeiros, que se afastara da militância e três meses depois foi preso, na véspera de fugir do País. Ex-cadete da Escola Naval, foi interrogado pelo Cenimar, da Marinha, e pelo DOI. Queriam saber dele onde estaria um sargento foragido. "Diziam: ‘Se você não falar, vamos fazer com você o que fizemos com o Mário Alves", lembrou Medeiros, que chegou a sofrer um fuzilamento simulado.

De óculos escuros de lentes marrons e blazer, sem gravata, na primeira fileira, Jacarandá ouviu com aparente tranquilidade os relatos emocionados dos ex-presos políticos, Até aplaudiu discursos, inclusive o da filha de Mário Alves, Lúcia.

Três outros militares convocados, também acusados da morte de Mário Alves, não compareceram. Dulene Garcez, Luiz Correia Lima e Roberto Duque Estrada enviaram petição alegando já ter falado à Comissão Nacional da Verdade. Damous rejeitou o pedido.

 

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