Coronel admite que permitiu invasão no Carandiru

O coronel Ubiratan Guimarães permitiu a entrada de policiais militares armados com metralhadoras no Pavilhão 9 da Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram massacrados. Ele só admitiu isso após ter sido indagado duas vezes pela juíza Maria Cristina Cotrofe durante seu interrogatório. Primeiro, o coronel respondeu que as metralhadoras são armas padrão da tropa de choque. "Não foi isso que eu perguntei. Perguntei se o senhor permitiu a entrada de policiais com metralhadoras." Tenso, o coronel esfregou as mãos, arrumou a gravata e só então respondeu que sim.Assim, com um interrogatório de 20 minutos, começou o julgamento do maior processo da Justiça brasileira. Ubiratan, que chefiou a operação, é o primeiro dos policiais a ser julgado pelo massacre. Ele é acusado de ser responsável pelas 111 mortes e por 5 tentativas de homicídios. Por duas vezes, a juíza interrompeu o coronel. Na primeira delas, lembrou que ele não devia dar a sua opinião pessoal, mas se limitar a descrever os fatos, pois caberá ao seu advogado explorar essas opiniões. Ubiratan havia acabado de dizer que, se a Polícia Militar tivesse entrado no Pavilhão 9 com a intenção de matar. "Tanto que 111 morreram, mas 2 mil e poucos estão vivos."A sessão de julgamento foi instalada com 1 hora e 15 minutos de atraso, às 11h15. A juíza iniciou o sorteio dos juradores. Foram escolhidos cinco homens e duas mulheres - a defesa recusou dois nomes sorteados e a acusação, um. Após o juramento dos sete escolhidos, a juíza pediu que o coronel se levantasse e se dirigisse até a sua frente, onde passou a interrogá-lo.RelatoPrimeiro, a juíza pediu ao réu que descrevesse o que havia ocorrido naquele 2 de outubro. O coronel repetiu o que já disse anteriormente: afirmou que estava no Comando de Policiamento Metropolitano quando soube que havia uma rebelião no Pavilhão 9. Ele saiu de seu quartel e foi à Casa de Detenção, tentou encontrar o diretor, Ismael Pedrosa, mas não o achou. Foi então à muralha do presídio, onde pôde ver os detentos no telhado do pavilhão. "Escutei tiros lá dentro." Depois, o coronel afirmou que entrou no presídio e se reuniu com Pedrosa. Tentou-se uma primeira negociação dos detentos, infrutífera. Tentou-se uma nova negociação, desde vez, Pedrosa foi protegido por pelotões de escudeiros da tropa de choque -homens que em vez de armas usam escudos, capacetes, cassetetes e bombas de gás lacrimogênio. "Aí atearam fogo em uma segunda barricada, demonstrando que não havia mais negociação", disse Ubiratan.Segundo ele, enquanto essas tentativas eram feitas, ele reuniu quatro capitães e dividiu as tropas que deveriam entrar no Pavilhão 9. Selecionou os homens das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), do Comando de Operações Especiais (COE) e do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) que, assim como os escudeiros, também pertencem ao Comando de Policiamento de Choque (CPChoq). A ordem, segundo ele, era ocupar o pavilhão, acabar com a rebelião e descer os presos para o pátio a fim de que fosse realizada uma revista. "No pátio já havia quatro mortos quando entramos." Segundo ele, quando os presos começaram a descer, iniciaram-se os tiros. Ele disse que tentou subir as escadarias do pavilhão, mas uma explosão o atirou contra a parede, desacordando-o. Levado para o pronto-socorro e, depois, para uma enfermaria militar, Ubiratan afirmou que não mais retornou à detenção naquele dia. Após o término de seu depoimento, a juíza mandou que ele se sentasse.Para o Ministério Público, as provas dos autos demonstram o contrário. Segundo a acusação, os laudos médico-legais mostram que a maioria dos tiros disparados contra os presos teve como alvo regiões vitais como cabeça e tórax, além dos tiros dados pelas costas e com as vítimas deitadas ou imobilizadas. O laudo dos peritos criminais mostram que não houve reação dos presos, ou seja não havia marcas de balas que evidenciassem disparos na direção dos policiais.A defesa alega inocência e afirmou que pedirá a absolvição do coronel. "A culpa pelas mortes é dos próprios presos que se rebelaram e enfrentaram os policiais", afirmou ao advogado de Ubiratan, Vicente Cascione. "Os policiais não foram ao Pavilhão 9 para se deixarem matar. Eles não estavam lá para serem mártires."PeçasA juíza leu os termos da denúncia criminal contra o réu e pediu à acusação e defesa que apresentassem a lista de peças do caso que deverão ser lidas ou vistas pelos jurados. Existem 50 volumes e 74 apensos no processo, além de seis livros e 16 fitas de vídeo. A acusação pediu que sejam lidos na íntegra os livros sobre o massacre feitos pelo advogado João Benedicto de Avezedo Marques e pelo atual prefeito de Guarulhos, Elói Pietá (PT). Além deles, serão lidos trechos dos livros "Rota 66", do jornalista Caco Barcelos, e "Estação Carandiru", do médico Dráuzio Varela. A promotoria também quer que os jurados ouçam a íntegra do relatório da Anistia Internacional sobre o massacre e uma reportagem do caso.A defesa ainda não definiu quais peças do processo pedirá para serem lidas. Segundo o promotor Felipe Locke Cavalcanti, a leitura de peças da acusação deve durar cerca de dois dias. Segundo ele, o Ministério Público selecionou um número "infinitamente" menor de peças neste julgamento em relação ao primeiro julgamento do coronel, iniciado em novembro passado e interrompido quando um jurado passou mal durante a leitura de peças.Somente após o término da leitura e da exibição das fitas de vídeo as testemunhas serão ouvidas. São 14, dez de acusação e quatro de defesa. Quando terminarem os depoimentos, a promotoria e a defesa farão os debates e, só então, chegará a vez dos jurados se reunirem para darem o veredito. Até lá, todos deverão permanecer no tribunal, onde vão comer a dormir. Não poderão falar sobre o processo e se tiverem alguma dúvida, só poderão resolvê-la com a juíza. Caso uma dessas normas não seja observada ou algum deles durma durante a sessão, o julgamento será novamente anulado e tudo recomeçará do zero. Caso seja condenado, e a juíza fixar a pena máxima para cada um dos homicídios, o coronel pode pegar até 3.400 anos de prisão, embora um homem só possa permanecer preso por no máximo 30 anos no Brasil.

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