Corações artificiais evitam mortes na fila do transplante

Eles nem de longe se assemelham ao natural. Mas já cumprem algumas de suas funções, ainda que por tempo limitado. Dos dispositivos que ajudam o coração a bater enquanto se espera por um transplante aos corações artificiais que visam a substituir completamente o órgão da vida, plástico, metal e bateria têm sido combinados das mais diferentes formas, utilizando-se as mais avançadas tecnologias. São décadas de pesquisas envolvendo profissionais da medicina à engenharia, tudo para se tentar chegar ao coração artificial perfeito.Nas últimas semanas, o mundo todo tem acompanhado uma situação que, para muitos, ainda parece ficção: a troca total de um coração humano por um artificial. A experiência, concretizada no início de julho nos Estados Unidos, entretanto, vai numa linha diferente dos dispositivos de assistência circulatória hoje disponíveis no mercado e que têm dado a milhares de pessoas a chance de sobreviver.Atualmente, os implantes cardíacos artificiais têm ajudado principalmente a diminuir o índice de mortalidade na fila do transplante de coração. São, como se diz no jargão médico, "ponte" para transplante; sua utilização tem caráter temporário e o órgão não é retirado, apenas implanta-se nele mecanismos que o auxiliem no trabalho de bombear sangue para o pulmão (tarefa do ventrículo - cavidade cujos músculos produzem contrações - direito) ou para o corpo (ventrículo esquerdo).Os dispositivos, compostos basicamente por uma bomba, cânulas de entrada e de saída, são fabricados por empresas em modelos variados, como Thoratec, Heartmate, Novacor, Berlin Heart e InCor (produzido pelo Instituto do Coração de São Paulo). Destes, InCor, Thoratec e Berlin Heart são paracorpóreos ? ligados a uma máquina externa -, enquanto Heartmate, HeartSaver e Novacor são totalmente implantáveis, reduzindo o risco de infecção.Alternativa - Disponível há sete anos, o modelo Novacor LVAS (sigla em inglês para auxiliar do ventrículo esquerdo), fabricado pela norte-americana Edwards Lifesciences, começa agora a chegar ao Brasil. A demora se deve, em parte, ao custo do aparelho (US$ 140 mil) e do treinamento profissional, que fica entre US$ 80 mil e US$ 140 mil. O treinamento, realizado no exterior, compreende experiências com novilhos. Além disso, é necessário que o cirurgião esteja ligado a uma instituição que realize ao menos 20 transplantes e 6 a 8 implantes do dispositivo ao ano, para praticar e não perder os conhecimentos adquiridos durante o treinamento.O modelo foi destaque no 11º Congresso Mundial de Cirurgiões Cárdio-Torácicos, ocorrido entre os dias 12 e 15 de agosto em São Paulo. "Os ventrículos artificiais são uma grande conquista da ciência", salienta o cardiologista Noedir Stolf, presidente do congresso. "São dispositivos de alta tecnologia que já estão salvando milhares de vidas." Projetado para trabalhar de seis meses a dois anos no peito do homem, o dispositivo já chegou a completar quatro anos de uso num paciente italiano.Porém, esta não é a principal causa de otimismo entre os médicos. O que tem chamado a atenção é um resultado inesperado por seus criadores: o aparelho tem auxiliado um pequeno percentual de pacientes a retomar o funcionamento normal do coração, tornando o transplante desnecessário. Segundo estudo realizado com 1.224 dos mais de 2 mil pacientes que receberam o Novacor entre 1994 e 2001, 4% dos corações foram recuperados, 3% continuaram utilizando o implante como alternativa ao transplante e para os outros 93% o dispositivo serviu como "ponte". "Com este suporte, o coração tem a chance de repousar mais e acaba se recuperando", explica Marcos de Britto Pereira, cardiologista ligado à Edwards. Assessor de desenvolvimento para a indústria farmacêutica há 15 anos, Pereira vê essa tecnologia com entusiasmo: "É como se a tecnologia reinventasse a medicina".Brasil - As primeiras utilizações de ventrículos artificiais como ponte para transplante datam do final da década de 60. Mas o sucesso só foi alcançado quase vinte anos depois, na segunda metade da década de 80. No Brasil, a história é mais recente. Desde 1992, o engenheiro eletrônico Adolfo Leirner, vindo do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), trabalha no desenvolvimento de ventrículos artificiais na Divisão de Bioengenharia do Incor. A intenção é oferecer alternativas aos caros aparelhos importados.O hospital, que realiza quase um terço dos transplantes de coração de todo o País, foi pioneiro na implantação de ventrículos artificiais na América Latina. Em fevereiro de 1993, em cirurgia liderada pelos médicos Noedir Stolf e Adib Jatene, o paciente, então com 30 anos, recebeu um aparelho de funcionamento paracorpóreo fabricado no próprio Incor. Portador da doença de Chagas, o mecânico Dorvillo Alves Madeira utilizou o dispositivo enquanto aguardava um transplante. O primeiro caso de utilização de dispositivo de assistência circulatória totalmente implantável no Brasil aconteceu poucos anos depois, em julho de 1999.O pedreiro Dionísio Eloi, à época com 46 anos e um coração dilatado, recebeu um modelo Heartmate no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul. O aparelho foi ligado ao ventrículo esquerdo, à artéria aorta e alocado sob o diafragma. Por fora, apenas um fio, o controlador e as baterias. Para grande parte dos pacientes brasileiros que esperam por um coração, entretanto, a realidade é outra. A utilização desses aparelhos, seja paracorpóreos ou internos, ainda é episódica, e cerca de 30% dessas pessoas acabam morrendo na fila do transplante.Somente no Estado de São Paulo, de julho de 1997 até o início de agosto deste ano, 192 pessoas morreram nessas condições, segundo dados da Central de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde. "Com essas máquinas, poderíamos evitar até 70% dessas mortes", disse Jarbas Dinkhuysen, chefe da seção médica de transplantes do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo.Para o médico, o problema não é exatamente a falta de verba. "Temos aviões, laboratórios, pesquisas de engenharia genética e somos obrigados a ver um terço dos pacientes morrerem à espera de um transplante. Há projetos muito caros que são realizados indiscriminadamente no País. O Ministério da Saúde tem de se conscientizar para esse problema."O Dante Pazzanese também mantém um projeto para a fabricação de corações artificiais. No ano passado, três carneiros tiveram um dispositivo cardíaco implantado. O trabalho para se conseguir apoio financeiro, porém, tem sido mais árduo do que o de pesquisa. "São US$ 3 mil para se comprar um rolamento", destaca Dinkhuysen. "É um processo caro, mas temos de fazer de tudo para salvar essas vidas."No lugar do coração humano, plástico, metal e bateriaA fantástica busca por um coração artificial teve, no início de julho, um de seus capítulos mais importantes. Na cidade de Louisville, no Kentucky (EUA), um homem teve seu coração trocado por outro totalmente artificial. O coração criado pelos homens é feito de titânio e plástico, tem o tamanho de uma laranja grande e pesa aproximadamente um quilo. Chamado AbioCor e fabricado pela Abiomed (empresa norte-americana de Massachussetts), o dispositivo tem dois ventrículos com válvulas e seu sistema de bombeamento hidráulico funciona através de um motor que controla a freqüência dos batimentos.Uma das inovações do projeto é que ele leva em conta a mobilidade do paciente. A bateria, localizada na altura da cintura do paciente, tem o tamanho de um pager e recebe cargas através de um fio em contato com a pele. O paciente, Robert Tools, de 59 anos, estava em fase terminal, é diabético e mal podia andar. Funcionário público aposentado, ele disse, 50 dias após o implante, que sabia que não viveria por muito tempo. "Me conscientizei de que a morte é inevitável. Mas se há uma chance para prolongar a vida, é preciso agarrá-la", argumentou.O coração já havia sido testado em ovelhas, que não sobreviveram mais do que três meses. A cirurgia, ocorrida no Hospital Israelita de Louisville, foi liderada por Laman Gray e Robert Dowling, médicos da Universidade de Louisville, e é vista como o maior avanço na área nos últimos 20 anos. A intenção é de que, no futuro, se consiga um dispositivo que funcione ao menos cinco anos e seja uma alternativa ao transplante.Segundo a Abiomed, a empresa recebeu do governo norte-americano aprovação para realizar pelo menos cinco testes com seres humanos que tenham alguma doença cardíaca crônica e progressiva, com expectativa de vida de até 30 dias. Se os resultados forem positivos, o número de experiências pode aumentar. Caso seja liberado, o custo do coração artificial deve ficar em US$ 70 mil.

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