Reprodução Instagram
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COP-26: Governo dá mais acesso a primeiras-damas sem função do que a ambientalistas

Munidas do crachá 'Parte', elas têm amplo acesso a reuniões dos acordos climáticos; ambientalistas ficam fora da delegação

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 17h14

BRASÍLIA – O governo Jair Bolsonaro credenciou primeiras-damas de quatro Estados, de uma capital e até a mulher de um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) na delegação oficial enviada à Cúpula do Clima (COP 26) das Nações Unidas. Além delas, a delegação inclui consultores do setor privado, lobistas de empresas exportadoras de carne, de fundos de investimento e representantes de entidades do agronegócio e da indústria.

A principal conferência sobre mudança climática do mundo é realizada em Glasgow, na Escócia. O Itamaraty encaminhou à ONU a lista com os nomes das primeiras-damas do Acre, Ana Paula Cameli; do Amazonas, Taiana Lima; do Pará, Daniela Barbalho; do Mato Grosso, Virginia Mendes; e de Salvador (BA), Rebeca Cardoso Reis, além de Vilauba Moraes Vital do Rêgo, mulher do ministro Vital do Rêgo, do TCU.

Credenciadas com o crachá “Parte”, de tarja rosa, elas têm amplo acesso a reuniões e espaços de negociação dos acordos climáticos. Nesses locais, a imprensa e a sociedade civil, formada por ambientalistas, cientistas e ativistas de organizações não-governamentais (ONGs), ficam de fora. Passaram a ser excluídos da delegação oficial pelo governo Bolsonaro, na COP 25 de Madri, Espanha, quando o governo despachou na comitiva agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A credencial dada às primeiras-damas identifica os representantes do País. Por isso, diplomatas que compõem a delegação brasileira dizem não ver sentido na inclusão de pessoas do terceiro setor que não são negociadoras do poder público. Até enviados do setor privado, porém, receberam agora a credencial, a exemplo de Marfrig, Minerva Foods, Pátria Investimentos, BSBios, ComBio Energia, Way Carbon, Raízen e Biofílica Ambipar Environment.

O número de dirigentes de entidades de classe também foi ampliado pelo Itamaraty, com nomes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas). A lista provisória de credenciados foi obtida pelo Estadão na ONU. O Ministério das Relações Exteriores se recusou a cedê-la.     

A participação das primeiras-damas é incomum, segundo diplomatas e ex-chefes de delegações brasileiras. Nas duas últimas edições da COP, por exemplo, não havia os nomes de cônjuges de autoridades públicas brasileiras.

“Elas não têm nenhuma função de negociação clara. A delegação tem de estar engajada nas questões climáticas e representar os interesses do País nos debates”, disse, de Glasgow, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, que chefiou delegações durante o governo Dilma Rousseff. “Talvez seja um traço do populismo climático que o Brasil vem adotando em anos recentes. É o Brasil negociando num estilo bem inovador”, ironizou.

Até mesmo no âmbito presidencial a presença de primeiras-damas é escassa na COP-26. Dos 197 países da convenção, apenas 12 credenciaram as companheiras de chefes de Estado e de governo. Entre eles, passarão por Glasgow as primeiras-damas de Argentina, Honduras, Turquia, Coreia do Sul, Equador, Angola, Serra Leoa, Seychelles, Panamá, Malawi, Sri Lanka e Suriname.

Não há agenda oficial de primeiras-damas brasileiras. Elas acompanharam os maridos em seus compromissos, frequentaram o pavilhão da COP 26 e aproveitaram a passagem pela Europa para passeios e jantares.

A primeira-dama do Mato Grosso e o governador Mauro Mendes apreciaram uma apresentação musical de artistas de rua em Glasgow, num momento de lazer. Após uma reunião dos governadores com o príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica, Virginia Mendes  o presenteou com uma rede artesanal feita por mulheres de Várzea Grande (MT). Antes, o casal e a comitiva do Estado passaram pela Dinamarca. Em Copenhague, circularam por um boulevard com lojas de grife. Tudo registrado nas redes sociais.

Nenhum dos órgãos questionados pela reportagem explicou o que justifica a presença das primeiras-damas na Cúpula do Clima, nem as atividades das quais elas participam ou por que razão foram credenciadas com o mesmo status dos negociadores da delegação brasileira.

Sem distinção

Indagado sobre a viagem de Vital do Rêgo e sua mulher, Vilauba, o TCU respondeu que os organizadores da COP 26 exigiram, por causa da pandemia de covid-19, que todos os representantes brasileiros e eventuais acompanhantes fossem credenciados como delegação oficial. Sendo assim, não houve distinção de nível de acesso entre assessores e acompanhantes. O TCU observou, ainda, que as despesas de Vilauba foram cobertas com recursos próprios.

O governo do Mato Grosso informou, por sua vez, que a primeira-dama acompanha Mauro Mendes nas agendas da própria conferência. Segundo o governo, ela mesma paga por alimentação, hospedagem e passagens aéreas.

Já a assessoria do prefeito de Salvador, Bruno Reis, disse que a primeira-dama Rebeca participou apenas como acompanhante de um jantar do grupo de prefeitos das Cidades Inteligentes (C-40), oferecido pelo anfitrião Philip Braat, prefeito de Glasgow. O encontrou ocorreu por causa da COP 26.  Segundo a prefeitura, eles não usaram dinheiro público na viagem.

De acordo com o governo do Pará, Daniela Barbalho viajou para acompanhar o governador Helder Barbalho com despesas pagas por conta própria, sem uso de recursos públicos.

Apesar de constarem da lista prévia de credenciados, o governador do Amazonas, Wilson Lima, e a primeira-dama, Taiana Lima, ficaram em Manaus. Segundo a assessoria do governo amazonense, eles não participarão mais da conferência na Escócia.

Procurada, a assessoria do governo do Acre não esclareceu se a primeira-dama Ana Paula acompanha de fato o governador Gladson Cameli, em Glasgow. O nome dela não consta da comitiva que vem sendo divulgada pelo governo do Estado. O Itamaraty e o Ministério do Meio Ambiente não responderam aos questionamentos sobre a composição da delegação oficial até a conclusão desta reportagem.

O Estadão apurou que, embora credenciada, a primeira-dama do Acre não viajou com o governador Gladson Cameli, que já retornou de Glasgow.

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