Cooperativas podem ser uma alternativa de ensino

A funcionária pública Kátia Padilha se surpreendeu na primeira vez em que se atrasou para buscar os filhos na escola. Eram quase oito horas da noite, as aulas tinham terminado há mais de duas horas. Ao chegar, apressou-se nas desculpas com o porteiro. "Ele me disse: não se preocupe, essa escola é sua." Os filhos de Kátia estão entre os 15 mil alunos do Estado que estudam em cooperativas formadas pelos próprios pais. A opção pela alternativa, alimentada pelo descontentamento com o ensino público ou particular, cresceu cerca de 80% no Brasil, nos últimos três anos.Por cooperativa educacional se entende uma escola cujo capital é todo proveniente dos pais dos alunos, os fundadores da instituição. Normalmente, cada um contribui com cerca de R$ 300 para que ela seja formada. Fora isso, há o que os cooperados chamam de rateio das despesas - e não de mensalidade - que é pago todo mês, e varia conforme a cidade.Quando o filho sai da escola, freqüentemente os pais deixam também a cooperativa, e levam sua parte do capital. Novos alunos significam sempre novos pais cooperados. Eles administram a escola por meio de conselhos eleitos, mas professores e outros educadores contratados ficam com a responsabilidade da execução da linha pedagógica.Mesmo com o crescimento, o modelo - que surgiu na década de 90 - esteve meio esquecido depois de passado o ?boom? de aumento de mensalidades, que foi uma das principais razões do surgimento da maioria das escolas. Mas a glória para os cooperados foi a divulgação do nome do primeiro colocado este ano nos vestibulares da Fuvest, Unicamp e Fundação Getúlio Vargas, que estudou até o 2º ano do ensino médio em uma cooperativa no interior de Goiás."A cidade é outra depois da escola. Antes, as crianças se mudavam para Goiânia para estudar, aos 12 anos, porque o ensino era muito ruim aqui", conta Maurício Mendes, pai de Lucas, o número um dos vestibulares. Ele e outros pais de Goiatuba - a 200 quilômetros da capital do Estado - montaram a cooperativa e mandaram professores locais a São Paulo e Curitiba para serem treinados. A escola, fundada em 1992, hoje tem 400 alunos, e Mendes não mais faz parte dela."A cooperativa não é garantia de qualidade, mas cria condições para ter qualidade", diz a educadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Neide Noffs. Ela explica que essas escolas não visam o lucro, e a única preocupação é a educação dos próprios filhos. "Desde a nossa fundação, toda sobra de dinheiro foi usada para capacitação de professores ou compra de equipamentos", diz um dos membros do conselho administrativo da Cooperativa Educacional de São Carlos, Arnaldo Locilento. A escola surgiu em 1994 e este ano aprovou 25 dos seus 40 alunos do ensino médio em vestibulares concorridos, sem necessidade de cursinho preparatório.Segunda casaUm aumento de 120% no preço de uma escola de Cotia, na Grande São Paulo, fez surgir a cooperativa educacional da cidade. Os pais, que praticamente não se conheciam, foram se organizando até concluir que a melhor solução foi montar a própria escola. O rateio, segundo a Organização das Cooperativas de São Paulo (Ocesp), é em média 40% mais barato que a mensalidade nas escolas. Patrícia Rodrigues, de 16 anos, estudou até a 5ª série em outra instituição e agora já está há seis anos na cooperativa. "A diferença é que cuido daqui como se fosse minha segunda casa."Para os pais que não fizeram parte da fundação das cooperativas, a maior vantagem é a participação livre e bem vinda na escola dos filhos. Nem todos trabalham na administração, mas estão sempre por perto. "Há uma interação muito grande entre as famílias e a escola, nossas sugestões são aceitas", diz a psicóloga Edna Longui, que tem duas filhas na Cooperativa Educacional da Cidade de São Paulo, na Vila Mariana, onde estudam também os filhos de Kátia."Nas escolas tradicionais, normalmente os pais ficam só pagando e achando que a escola é ótima", diz Valentino Ruy, de 9 anos, aluno da cooperativa e defensor ferrenho do modelo, que conhece desde a pré-escola. "Aqui, a gente aprende de um jeito divertido."Apesar de não ser regra, a maioria das cooperativas educacionais adota o modelo de ensino socioconstrutivista. "O cooperativismo também é uma construção de valores", explica a representante do cooperativismo educacional na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Maria Cristina Pompermayer. Existem hoje no País 625 escolas que são cooperativas filiadas à OCB. No Estado de São Paulo, são 55, a maioria no interior. Há dez anos, não passavam de quatro as cooperativas educacionais paulistas.

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