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Convulsão

Com a sensação de desmando, de descontrole, a hora é de prudência, não de audácia

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2017 | 03h00

É hora de alguém soprar um velho conselho ao ouvido do presidente Michel Temer: “Devagar com o andor que o santo é de barro”. Quando tudo parecia melhorar, com as presidências da Câmara e do Senado na mão, inflação e juros caindo, arrecadação subindo, o PMDB e Temer se animaram, superestimaram a própria força e passaram a agir como se não devessem satisfações a ninguém, nem à opinião pública. Errado.

Desprezando os outros 27 candidatos, Temer lançou o ministro tucano Alexandre de Moraes para julgar a Lava Jato no Supremo. Até aí, tudo bem, porque Fernando Henrique e Lula, por exemplo, indicaram ministros que tinham cargos em seus governos. Afora um muxoxo estudantil ou outro, Moraes vem sobrevivendo aos corredores poloneses: os futuros colegas, associações do mundo jurídico e os principais partidos assimilaram bem a escolha.

Temer, porém, errou duplamente com Moreira Franco: ao não nomeá-lo ministro no início do governo e ao nomeá-lo ministro três dias depois da homologação das delações da Odebrecht, em que é citado mais de 30 vezes. A dedução lógica é que foi para livrar Moreira do juiz Sérgio Moro e acomodá-lo no foro privilegiado, e mais confortável, do STF. Um juiz do DF suspendeu a nomeação, a Advocacia-Geral da União (AGU) suspendeu a suspensão, uma juíza suspendeu a suspensão da suspensão.

Resultado: Temer comprou uma briga com a Justiça, atraiu um desgaste político desnecessário e corre o risco de engolir uma doída derrota hoje, caso Celso de Mello vete a ascensão de Moreira a ministro, tanto quanto Gilmar Mendes impediu a posse de Lula na Casa Civil de Dilma para – como se imaginava – ganhar foro privilegiado. Ok, a AGU alega que, como Moreira já estava no governo, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Cola?

Para piorar, o PMDB indicou por aclamação o senador Edison Lobão para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que vai, entre tantas outras coisas, sabatinar Moraes para o STF. Lobão foi ministro de Minas e Energia de Lula e Dilma, exatamente quando a Petrobrás esfarelava, e é alvo de quatro inquéritos no STF, dois deles relacionados à Lava Jato.

É um escárnio o partido do presidente da República colocar alguém assim na CCJ, num momento explosivo. E mais: a vitória de Lobão confirma que Renan Calheiros continua mandando no Senado a partir da liderança do PMDB. O desgaste é do Congresso, mas respinga no Planalto. E, diferentemente de Renan, Temer tem muito a perder com lances audaciosos.

Para piorar, a PF apontou indício de corrupção do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM do Rio, personagem central para a aprovação de medidas essenciais na retomada do crescimento econômico, a começar da reforma da Previdência e da flexibilização trabalhista – que, aliás, ganhou impulso ontem na própria Câmara. Com a CCJ do Senado nas mãos de Lobão e a Câmara presidida por um alvo da PF, o que se esvai é a credibilidade dos agentes das reformas.

Por falar em Rio, que coisa, hein? Massacres em Manaus, Boa Vista e Natal, o colapso da segurança pública no Espírito Santo, a ruína do Rio, a prisão de dois ex-governadores do estado (Garotinho saiu, Cabral continua preso)... Não bastasse, a justiça eleitoral mandou cassar Luiz Fernando Pezão (do PMDB!) e seu vice, Francisco Dornelles, enquanto a PM e manifestantes transformam a Cidade Maravilhosa em campo de batalha.

A sensação geral é de desmando, de fim de uma era, e Temer deveria ser menos autoconfiante e concentrar energias na recuperação da economia e na escolha de um ministro da Justiça acima de qualquer suspeita, que não irrite ainda mais a opinião pública. Cuidado com o andor e com o santo. O momento não é de audácia, é de prudência.

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