Conversa entre Lula e Chávez vaza e escancara entrave na relação

Sem saber que eram ouvidos, os dois presidentes tentaram aparar aresta

Tânia Monteiro e Tiago Décimo, SALVADOR, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2009 | 00h00

Uma "barbeiragem" da equipe de som que montou as instalações do encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o líder venezuelano, Hugo Chávez, permitiu que parte da conversa reservada entre os dois fosse transmitida para o público externo.Diante da dificuldade de se chegar a um acordo para a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, Lula prometeu ao colega venezuelano que, se conseguir eleger sua sucessora a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, todos os problemas serão superados, e o projeto sairá do papel."Se eu conseguir eleger a Dilma, vou ser o presidente da Petrobrás. E você, Gabrielli, vai ser meu assessor, e o acordo será fechado", disse o presidente, em tom de brincadeira, sem saber que a ironia estava sendo ouvida por toda a imprensa, na sala ao lado, pelo equipamento de tradução simultânea montado para a entrevista que seria concedida logo depois.O vazamento da discussão entre os dois presidentes e Gabrielli permitiu que os jornalistas acompanhassem as dificuldades de negociação, no encontro reservado entre os três. Houve insistentes e inúmeras reclamações de Chávez, além de sua decepção com os novos entraves na discussão.Gabrielli explicava que havia três pontos que necessitavam mais debate - custos de investimento, comercialização do produto e o preço do petróleo - e avisava que seriam necessários mais 90 dias para discutir todas essas questões.Chávez reclamou. "É lamentável não sermos capazes de fazer um acordo. A conta é de anos. Confesso que estou frustrado. A culpa é dos dois governos", afirmou, ressaltando os entraves. "Não podemos conceder à Petrobrás um preço diferenciado. O preço tem de ser o de mercado. No mundo inteiro funciona assim. Funciona assim em Cuba, nos Estados Unidos e na Rússia." O presidente da Petrobrás, então, respondeu ao venezuelano: "Nós também defendemos o preço internacional."ALVOROÇOQuando os assessores dos dois presidentes descobriram que os jornalistas estavam ouvindo a reunião reservada, houve enorme alvoroço e preocupação. Representantes do governo brasileiro exigiram que a empresa que havia fornecido o equipamento tomasse os fones da imprensa. Eles mesmos auxiliaram na execução da tarefa.

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