Contracampanha domina menções a Dilma e Serra no Twitter, indica análise

Referências negativas são termos mais associados a candidatos em comentários no site.

Camilla Costa, BBC

29 de outubro de 2010 | 13h39

As palavras mais associadas em outubro a Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) no Twitter foram termos ligados a correntes contrárias às campanhas dos dois candidatos à Presidência, indica um levantamento realizado pela agência de marketing para a internet Alfaiataria Digital.

De acordo com os dados reunidos pela empresa no último mês da campanha eleitoral, as palavras "contra" e "dilmanão" aparecem entre as dez mais citadas em relação à candidata do PT.

No caso de Serra, a corrente "Brasil13" e a palavra "não" também ficam entre as dez mais citadas.

Expressões como "SerraMilCaras", "dilmanão", "serrameerra" e "anti-dilma", que denominam correntes propagadas pelos usuários, também aparecem entre as 120 mais citadas em relação aos dois candidatos.

A medição foi realizada pela Alfaiataria Digital por meio da ferramenta TwitEleitoral, que mede os números absolutos de comentários sobre cada candidato no Twitter, e também as citações que relacionam cada um a temas como educação, corrupção e meio ambiente.

Os comentários foram capturados entre os dias 4 e 24 de outubro.

Para Manoel Fernandes, consultor de planejamento estratégico em redes sociais, os resultados indicam que o site social foi mais utilizado como instrumento de contracampanha do que para estimular debates sobre o próximo governo.

"Tudo o que eles não podiam falar sobre o adversário em outros meios durante a campanha, falaram no Twitter", avalia o consultor.

Diálogo

Fernandes diz ainda que o Twitter foi "mal aproveitado" pelas campanhas, que, na opinião do consultor, optaram por uma abordagem "utilitária".

"Fizeram muito 'twitaço', muito circo", afirma. "Os políticos acharam que iriam resolver a campanha em dez meses, mas internet não se trata disso. É preciso construir relacionamento e, nessa campanha, faltou diálogo com as pessoas."

O coordenador da campanha de Dilma Roussef na internet, Marcelo Branco, afirma que as correntes de humor e ironia sobre os candidatos são uma característica da internet que fez parte da estratégia da campanha petista.

"A 'pegação de pé' sempre foi algo muito próprio da internet e das redes sociais. Nós usamos isso na hora de fazer críticas ao nosso adversário, mas sempre tentamos falar também de coisas positivas e do momento em que a campanha estava", disse Branco.

O assessor de Dilma diz ainda que a importância do site durante as eleições foi maior do que a prevista por todos, mas que o "calor da discussão" impediu mais debates sobre propostas de governo.

"O Twitter funcionou como uma plataforma de mobilização dos apoiadores e das principais ações da campanha, online e offline", acrescenta Branco.

Interesse

Já a coordenadora da campanha de José Serra na internet, Soninha Francine, diz que faltou interesse por parte dos usuários da rede em saber mais sobre as propostas dos candidatos.

"A vontade de derrotar o outro extrapolou muito a discussão de temas mais importantes", avalia a ex-vereadora. "Chegavam mais mensagens agressivas para mim do que argumentos ou perguntas."

Soninha também admite que a campanha de Serra demorou a se organizar pelo Twitter.

"A gente não botava muita fé em ações pelo Twitter, porque achávamos que a internet não tem controle", afirma. "Mas depois percebemos que as pessoas queriam se engajar. Poderíamos ter começado a fazer isso mais cedo."

Aborto

Na opinião de Manoel Fernandes, um dos elementos que chamou atenção no levantamento foi a falta de palavras associadas ao conteúdo dos programas de governo dos candidatos.

"O Twitter pode ser um ambiente excelente para debater questões importantes para o país", diz o consultor. "Teria sido possível passar mensagens importantes e chamar para o debate sério, mesmo usando o humor."

O aborto, assunto que dominou a última fase da campanha, aparece entre as 20 palavras mais associadas a José Serra e entre as 30 mais associadas a Dilma Rousseff.

Fernandes avalia que o menor número de citações a palavras como "Erenice" e "Paulo Preto", referentes aos mais recentes escândalos e trocas de acusações entre os candidatos, indicam a pouca repercussão destes assuntos na internet.

"Na verdade, as pessoas não deram muita atenção para os escândalos", afirmou.

O levantamento da Alfaiataria Digital foi realizado a partir da análise de cerca de 250 mil tweets relacionados a cada candidato durante o mês de outubro.

Para medir somente os comentários espontâneos dos usuários, ficaram de fora do levantamento mensagens que remetiam diretamente aos perfis oficiais das campanhas no site.

O Brasil é responsável por cerca de 6,2 milhões de tweets diários, segundo uma pesquisa recente da empresa Semiocast.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.