Contra Alckmin, Mercadante clona slogan de Serra

Depois do 'Brasil pode mais' do tucano, pré-candidato petista ao governo do Estado aposta no 'Em São Paulo muito mais é possível'

Gustavo Porto e Elizabeth Lopes, da Agência Estado

23 de abril de 2010 | 18h43

SÃO PAULO - Petistas e tucanos travam nessas eleições gerais a batalha pela preferência do voto do eleitorado. Mas, em termos de slogan, as duas legendas estão mais próximas do que nunca. Depois do bordão "O Brasil pode mais" utilizado pelo presidenciável do PSDB, José Serra, no lançamento de sua pré-campanha, o PT paulista - que enfrenta a difícil missão de quebrar a hegemonia de 15 anos dos tucanos no Estado - também decidiu apostar nesse mote. Documento que reúne as diretrizes do partido para tentar eleger o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) ao Palácio dos Bandeirantes, obtido com exclusividade pela Agência Estado, prega que "Em São Paulo muito mais é possível".

 

Em comum, além dos slogans e de tentar tirar da outra legenda o comando político de São Paulo, no caso dos petistas, e do Brasil, no caso dos tucanos, petistas e tucanos enfrentarão nas duas esferas de poder governos bem avaliados. E, no caso de São Paulo, cristalizado no poder. Para o cientista político Fábio Wanderley, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), nos dois casos a linha seguida é a da "política do eu também", na qual "os que querem remover os titulares do poder não têm outro recurso senão aderir às políticas que estão sendo executadas e inventar um diferencial, neste caso a promessa de um avanço".

 

Na avaliação de Sidney Kuntz, especialista em pesquisa eleitoral e em marketing político, a semelhança no bordão mostra que os governos federal e paulista estão consolidados e são muito bem avaliados pela população em geral. Por isso, é preciso passar a ideia de que as ações positivas serão mantidas, mas os avanços ocorrerão. "Vender esperança ainda é a melhor forma de se conquistar um voto. Agora, os candidatos terão a missão de convencer o eleitor, de passar a mensagem de que realmente colocarão suas promessas em prática. Daí, não adianta ficar só no discurso, tem que convencer", destacou.

 

O cientista político da UFMG ressalta que em São Paulo há uma hegemonia do PSDB e um antagonismo ao PT "que certamente não deve se resolver apenas na base deste ou daquele slogan". E complementa: "No Brasil, com a popularidade do presidente Lula, a dificuldade do Serra é muito grande, apesar de ele estar na liderança nas pesquisas de intenção de voto e de ainda haver alguma dúvida na transferência de votos (do presidente) para a candidata Dilma (Rousseff)." Já Sidney Kuntz destaca que essa campanha será pautada pelas comparações das gestões anteriores e com a marca do "avanço", pois usualmente o eleitor não quer mexer em time que está dando certo.

 

Para o cientista político Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente, se o PT apostar, em São Paulo, no slogan semelhante ao do PSDB nacional, estará cometendo um erro. "Pelo PSDB o slogan é lógico, mas se o PT cair nessa será uma provocação, um apelo. Segundo ele, isso poderá demonstrar que a campanha será apenas para enfraquecer o PSDB e o Serra no Estado. "É repetir o erro de 2006, uma medida aloprada", ironizou Dantas, numa alusão ao suposto dossiê contra o então candidato ao governo de São Paulo José Serra e ao ex-candidato à Presidência da República Geraldo Alckmin, no pleito de 2006. Na época, os petistas envolvidos no caso foram chamados pelo presidente Lula de "aloprados", pois o escândalo foi apontado por especialistas como o responsável por levar as eleições presidenciais para o segundo turno.

 

Documento

 

No documento das diretrizes de campanha de Aloizio Mercadante rumo ao governo paulista, é destacado que as metas de governo propostas pelo PT "estão pautadas por uma visão mais ampla de futuro e pelo convencimento de que está na hora de São Paulo trilhar um novo caminho". Por isso: "Em São Paulo Muito Mais é Possível". O texto avalia que repensar São Paulo, "no contexto da grande transformação pela qual passa o Brasil, supõe dar uma nova direção e uma nova dinâmica ao seu desenvolvimento: a força do crescimento precisa ser temperada pelo desejo de justiça, igualdade, democratização econômica, social e cultural".

 

Para os petistas, esse novo modelo de desenvolvimento também deve incorporar a sustentabilidade ambiental, aliando o progresso técnico, o crescimento econômico e a distribuição de renda. "Esse novo modelo deve, ainda, considerar a grande diversidade social e cultural de São Paulo." O documento cita ainda a descoberta do pré-Sal como "um novo marco para sua economia". "Se investidos prioritariamente em educação, ciência e tecnologia e no combate à pobreza e às desigualdades sociais, e na preservação do meio ambiente os recursos do Pré-Sal podem representar, para o Brasil e para São Paulo, uma oportunidade histórica de dar um novo salto de qualidade."

 

Já sobre o maior cabo eleitoral da legenda, o presidente Lula, o documento diz: "Nossa inspiração é a grande transformação que está ocorrendo no Brasil com o governo Lula, nos últimos sete anos. O país voltou a crescer, mas obedecendo a uma lógica distinta daquela do passado: o crescimento, hoje, acontece com estabilidade, distribuição de renda, justiça social e fortalecimento da democracia." E destaca que para fazer a transição do modelo neoliberal, considerado esgotado pelo PT, a legenda apresenta a candidatura Mercadante. "Com Senador Mercadante Governador de São Paulo, muito mais é possível."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.