Reprodução/Twitter
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Conta no Twitter divulga dados pessoais de fotógrafa do ‘Estadão’

Gabriela Biló teve RG, CPF, telefone e endereço compartilhados e declarações distorcidas

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 14h05

BRASÍLIA - A jornalista do Estadão Gabriela Biló teve seus dados divulgados por um perfil do Twitter que reúne apoiadores do governo Bolsonaro. A conta chamada Black Dog compartilhou dados pessoais da fotógrafa, como RG, CPF, telefone, endereço e uma foto da casa de sua família, em São Paulo. Criada em 6 de março de 2019, a conta tem 8.879 seguidores.

Procurado, o Twitter informou ter regras que determinam os comportamentos e conteúdos permitidos na plataforma, incluindo a política de informações privadas. “Após o recebimento de denúncias de possíveis violações a essa política, uma equipe do Twitter analisa o caso e toma as medidas cabíveis”.

Um trecho de uma entrevista concedida pela jornalista, em 2018, para a Jornalismo Júnior  empresa júnior formada por estudantes de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) – foi editado e compartilhado pelo perfil de forma a distorcer a declaração da profissional; assim como outro vídeo filmado pelo militante bolsonarista Oswaldo Eustáquio, que se apresenta como “jornalista investigativo” no Twitter, de quando a fotógrafa fazia uma reportagem em frente ao endereço da ativista Sara Fernanda Giromini, conhecida como Sara Winter.  O vídeo foi editado para sugerir que a repórter ameaçou dar um tiro na ativista. O trecho editado traz Sara afirmando para a repórter: “Me ameaçou e disse que a ordem é dar um tiro na minha cara. É eu morrer com um tiro na minha cara.”  A frase sem edição é: “Você sabia que o Antifas (grupo contra o fascismo) me ameaçou e disse que a ordem é dar um tiro na minha cara para eu morrer com um tiro na minha cara?”

Na ocasião, a repórter estava em frente ao endereço da ativista para acompanhar o trabalho da Polícia Federal, que havia ido ao local para intimar Sara a prestar depoimento no inquérito das fake news, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). Desde então, Gabriela Biló vem sendo atacada nas redes sociais. 

Foi a própria Sara quem divulgou no Twitter que a Polícia Federal estava na casa dela. Além do Estadão, outros órgãos de imprensa foram ao local cobrir a ação da PF, como de costume, nesse tipo de situação.

Na ocasião, Gabriela Biló estava do outro lado da rua da casa da ativista quando foi abordada por ela e por Oswaldo Eustáquio. Os dois agrediram verbalmente a fotógrafa e Oswaldo tentou impedir a equipe de deixar o local, se recusando a tirar a mão da porta do carro.  

Oswaldo foi condenado em fevereiro a indenizar o jornalista Glenn Greenwald por ter ofendido a mãe dele, Arlene Greenwald, que morreu em dezembro vítima de um tumor no cérebro. Meses antes, o militante postou nas redes que a doença da mãe de Glenn era mentira. A mulher dele, Sandra Terena, é secretária nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. 

O vídeo publicado pela conta no Twitter Black Dog não mostra os xingamentos feitos à repórter pela ativista e o militante que a acompanhava. Diante das agressões, a profissional questionou se a Polícia Federal havia estado no endereço e, sem resposta, se retirou do local. O endereço da ativista não foi divulgado pelo Estadão em nenhum momento. 

O vídeo ainda traz outros trechos editados da entrevista da jornalista para a Jornalismo Júnior, direcionada a estudantes de jornalismo da USP. “O primeiro conflito que eu cobri foi uma manifestação do passe livre e foi um caos. Ninguém estava esperando, tinha pouca imprensa cobrindo. Nesse dia, eu tinha muitas fotos publicadas, eu era ‘freela’ e eu percebi a importância de estar lá, registrar esses momentos, tem a questão da adrenalina e acho que a recompensa é uma coisa que acabou me atraindo muito para o fotojornalismo.” 

No vídeo, a palavra recompensa é repetida várias vezes e na imagem aparecem cifrões. A jornalista, na verdade, falou em “recompensa social”, o que foi suprimido do trecho editado pelo perfil do Twitter.   Na versão original, a jornalista respondeu à pergunta sobre por que cobrir manifestações em outro contexto. “Eu comecei a fotografar, era freela, gostava de cobrir o que eu sentia que era relevante, achava importante deixar meu olhar sobre aquele determinado assunto. Foi nas manifestações do Passe Livre. Eu já tinha coberto algumas manifestações, mas nunca tinha dado conflito. Foi um caos, ninguém estava esperando, tinha pouca imprensa cobrindo. Nesse dia lembro que eu tinha muitas fotos publicadas, eu era ‘freela' e eu percebi a importância de estar lá, registrar esses momentos e mostrar meu olhar sobre um acontecimento histórico. Tem a questão da adrenalina e tudo mais, mas acho que a recompensa social é uma coisa que acabou me atraindo muito para o fotojornalismo”, disse ela. 

O vídeo coloca ainda um trecho de uma fala da jornalista de forma descontextualizada. “Eu prefiro estar ao lado dos manifestantes porque o manifestante, quando ele te agride, com uma pedra, uma coisa assim, ele não mira em você e joga uma pedra”, disse Biló,  naquela ocasião. Sobre a imagem da jornalista, nas redes sociais, foi colocada a frase “Eu prefiro estar ao lado dos manifestantes”.

Na entrevista, contudo, a jornalista se referia ao melhor local para cobrir uma manifestação. Segundo ela, entre os manifestantes, onde o risco, embora exista, seria mais acidental. “Eu falo que eu sempre prefiro estar ao lado dos manifestantes porque o manifestante, quando ele te agride, com uma pedra, uma coisa assim, ele não está escolhendo te agredir. Ele não mira em você e joga uma pedra em você. Ele está jogando uma pedra. Agora, o policial ele escolhe te agredir”, afirmou ela. 

A montagem termina com outro trecho editado e descontextualizado. “A maior dificuldade em cobrir conflito é ser honesto com sua narrativa fotográfica. Isso é bem difícil. Nem sempre você vai conseguir que a sociedade responda do jeito que você tentou passar”. O vídeo reforça a frase “Nem sempre você vai conseguir que a sociedade responda do jeito que você tentou passar” e encerra com um alerta: cuidado com o que você está consumindo. 

A frase original da repórter é: “A maior dificuldade em cobrir conflito é você tentar ser honesto na sua narrativa fotográfica. Isso é bem difícil porque você não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Você pode ser honesto com aquilo que você está vendo. Construir uma narrativa com um conjunto de fotos que você ache que você fez jus ao que está acontecendo em volta de você. No fotojornalismo, em geral,  sempre o maior desafio é você sentir que fez jus ao que você vivenciou.”

Assista aos vídeos na íntegra: 

 

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