Consultores põem em xeque pequenas doações eleitorais

Segundo especialistas em campanhas, modelo de arrecadação via internet que Marina Silva estuda adotar ainda não é viável no País

Isadora Peron, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2013 | 16h03

Especialistas ouvidos pelo Estado acreditam que dificilmente uma campanha eleitoral no Brasil, com a legislação em vigência hoje, possa ser bancada única e exclusivamente com doações de pessoas físicas. A Rede, partido que a ex-senadora Marina Silva trabalha para criar, discute a possibilidade de aceitar somente esse tipo de recurso.

O discurso adotado pelos “sonháticos” que acompanham a ex-senadora é conseguir estabelecer um modelo de financiamento de campanha em que muitas pessoas doem pouco. Atualmente, a lógica é outra: pequeno número de grupos empresariais doando grandes quantias.

Consultores de marketing político acham impossível, portanto, que alguém venha a repetir por aqui o sucesso do modelo adotado por Barack Obama, que em suas duas últimas campanhas à Presidência dos EUA conseguiu arrecadar milhões de dólares pela internet.

Para Marcelo Branco, ex-coordenador de mídias sociais da campanha de Dilma Rousseff em 2010, esse tipo de doação só vai ganhar importância se uma reforma política sair do papel. “Se grandes empresas não poderem mais doar, vai ajudar a valorizar essa ação de financiamento coletivo, que é o típico financiamento da internet, onde pequenas doações fazem grandes projetos”, afirma.

O consultor em marketing político e professor da USP Gaudêncio Torquato aponta outro obstáculo: “Nós não temos uma cultura na área de doação pela internet. Apesar de termos uma massa bastante volumosa de internautas, esse tipo de doação ainda é visto com muita desconfiança. Se ela (Marina) esperar por isso, vai morrer na praia”.

Para o especialista em marketing digital Gabriel Rossi, a rejeição à classe política que resultou na onda de manifestações de junho pode dificultar ainda mais colocar em prática esse tipo de arrecadação. “Com esse divórcio entre política e sociedade, fica muito difícil uma pessoa física querer doar dinheiro.”

Nesse cenário, no entanto, Rossi acredita que Marina pode ser a grande beneficiada, pois ela teria conseguido se afastar da imagem dos políticos tradicionais. “Talvez ela seja hoje a figura que mais tenha tendência de receber doação de pessoa física”, afirma.

Doações. Como revelou ontem o Estado, militantes da Rede defenderam esta semana que a sigla não receba doações de bancos e empreiteiras. O partido em gestação já proíbe, em seu estatuto preliminar, recebimento de dinheiro de fabricantes de bebidas alcoólicas, cigarros, armas e agrotóxicos. Marina disse que o debate vai ser aprofundado até o ano que vem, mas admitiu a possibilidade de a Rede só aceitar doações de pessoas físicas numa eventual campanha presidencial.

Em 2010, no entanto, a maior parte dos R$ 24,1 milhões arrecadados por Marina vieram de pessoas jurídicas. Só o vice na sua chapa, o empresário Guilherme Leal, da Natura, doou R$ 12 milhões. Pela internet, a ex-ministra conseguiu arrecadar apenas R$ 170 mil de doações de pessoas físicas nos 58 dias em que um site ficou no ar.

Na época, o curto período que se teve para conseguir levantar esses recursos foi apontado como um obstáculo para obter resultados mais efetivos. A comparação foi feita com as campanhas nos Estados Unidos, que costumam ter duração de mais de um ano, enquanto as brasileiras levam poucos meses.

Nas eleições municipais do ano passado, a arrecadação de doações pela internet não empolgou quem disputou o pleito. Em São Paulo, os dois principais candidatos – Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB) – abriram mão de usar o recurso por avaliarem a relação “custo-benefício”.

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