Consulado negou informações sobre diplomata à CNV

O Itamaraty será acionado para encaminhar ao governo americano um pedido de informações sobre o envolvimento do ex-diplomata americano Claris Halliwell com a ditadura militar brasileira, diante da recusa do consulado daquele País em São Paulo em atender às primeiras demandas por informações.

VANNILDO MENDES, Agência Estado

25 de fevereiro de 2013 | 19h25

O envolvimento do ex-diplomata americano Claris Halliwell com a ditadura militar brasileira está causando embaraço diplomático entre os dois países. Diante disso, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) vai interceder para desfazer mal-entendidos e tentar a colaboração do governo dos Estados Unidos às investigações.

A estratégia para acertar a colaboração americana será definida em reunião nesta terça-feira (26) da CNV com o coordenador da Comissão Estadual da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo, Ivan Seixas. Se a via diplomática não for suficiente, as duas comissões vão discutir meios legais de cobrar as explicações ao governo americano. Um dos caminhos é acionar, por meio do Ministério da Justiça, o acordo de cooperação jurídica internacional entre os dois países.

Documentos revelados no domingo (2) pelo jornal O Estado de S. Paulo mostram que o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), de São Paulo, registrou visitas regulares de Halliwell, identificado como "cônsul", à sua sede entre 1971 e 1974. Na época, o local funcionava como um centro de torturas. Novos documentos localizados pela Comissão Estadual mostram que o ex-diplomata tinha protagonismo político no Brasil desde antes do golpe militar. Em 1958, por exemplo, ele intermediou um encontro de uma missão do Departamento de Estado americano com o presidente Juscelino Kubitschek.

O coordenador da CNV, Paulo Sérgio Pinheiro, informou que vai definir o melhor encaminhamento, inclusive a necessidade de convocação de pessoas, com os dirigentes paulistas. "Eles estão desenvolvendo essa investigação com responsabilidade e o nosso inteiro respaldo", explicou. Seixas informou que muitos fatos relacionados às visitas de Halliwell ao Dops precisam ser esclarecidos, pois algumas ocasiões coincidiram com desaparecimento de presos políticos, como foi o caso de Devanir José de Carvalho.

Ex-agente de inteligência dos EUA, falecido em 2006, Halliwell teria tido contato com outros golpes de estado na América Latina. Documentos já rastreados revelam que, depois de atuar como cônsul-geral em São Paulo de 1970 a 1974, ele seguiu para a embaixada americana no Chile, após o golpe militar que levou o ditador Augusto Pinochet ao poder. Apesar das evidências, o questionamento será feito de forma serena. "Estamos propondo à Comissão Nacional que não faça propriamente uma interpelação, mas uma pergunta ou um questionário básico, só queremos o esclarecimento dos fatos", explicou Seixas.

Relatório

A ideia é fechar o relatório parcial, com todos os depoimentos tomados, em dezembro deste ano. Até lá, 30 milhões de páginas documentos também serão analisados. A comissão se extingue em 16 de maio de 2014, quando será entregue o relatório final à presidente Dilma Rousseff.

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