Construtoras conseguem obras em reduto de Renan

Desde 2004, três pequenas empresas de Alagoas faturaram em contratos R$ 46 milhões vindos dos cofres da União por meio de repasses

Ricardo Brandt, MACEIÓ, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2007 | 00h00

Três construtoras de pequeno porte especializaram-se na obtenção de contratos com prefeituras do interior de Alagoas que são reduto político da família Calheiros. Algumas dessas prefeituras receberam emendas do presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros, e de seu irmão e deputado Olavo Calheiros, ambos do PMDB. As empresas, que atuam numa espécie de consórcio, seguem os recursos do governo federal transferidos para os municípios por meio de convênios. Juntas, elas obtiveram desde 2004 R$ 46 milhões com esses contratos.Beneficiadas com verbas da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Ministério da Integração Nacional, Ministério das Cidades e Caixa Econômica Federal, as empresas recém-criadas apresentam um crescimento astronômico de faturamento.O carro-chefe dos negócios é a Lacerda Engenharia Ltda., que pertence ao empresário Ronaldo Farias de Lacerda. Criada em setembro de 2004, em Alagoas, com um capital social inicial de R$ 20 mil, a empresa viu seus negócios decolarem por conta de contratos com repasse da União, no valor total de R$ 31,7 milhões. "Nosso foco é obra com recurso federal porque o município não tem recurso", explicou Lacerda.Em Murici, onde o prefeito é Renan Calheiros Filho (PMDB), a construtora conseguiu dois contratos, um deles de R$ 4,2 milhões para obras de drenagem, pavimentação, construção de casas e de um ginásio com recursos repassados pela União. Na cidade já existe um ginásio. O novo não saiu do papel. Outro contrato foi de R$ 1,4 milhão com recursos da Funasa para construção de casas populares e obras de infra-estrutura.SEM FUNCIONÁRIOSAs outras duas construtoras que surgem na cola da Lacerda são a Cicla Construções e Representações de Materiais Ltda. e a Maris Construções e Materiais Ltda.. Sem nem sequer ter funcionários, as duas empresas abocanharam contratos do mesmo tipo nas prefeituras alagoanas.A Maris foi criada em 4 de setembro de 2003, segundo ata de constituição registrada em cartório. Os donos oficiais são José Maris de Lima e Pedro Antônio de Oliveira. Entre 2003 e 2005, a empreiteira fechou 28 contratos em 18 cidades do interior de Alagoas, num total de R$ 10,2 milhões. A maior parte para fornecimento de materiais de construção.O único braço visível dela é um terreno de pouco mais de 250 metros quadrados com um muro pintado com seu nome. O Estado esteve no lote 11, quadra A, no bairro Tabuleiro do Pinto, na cidade de Rio Largo (AL), endereço que consta da ata de cartório. O local estava fechado. Um vigia, que disse morar no terreno, contou que não havia nenhum responsável e orientou a reportagem a procurar pelos donos da empresa na Lacerda Engenharia.No endereço de número 32, na quadra H, bairro de Tabuleiro do Pinto, em Rio Largo, onde deveriam morar os proprietários da Maris (ambos declararam residir no mesmo local), havia apenas uma casa popular de três cômodos. Nela vive a família de um funcionário da Lacerda Engenharia, segundo informou a moradora.A outra empresa que integra esse consórcio informal é a Cicla, que foi criada em 21 de junho de 2004. Os proprietários, segundo registro de ata em cartório, são Cícero Antônio da Silva e Cláudio Pinheiro dos Santos. Entre 2005 e 2006 ela fechou 18 contratos em 13 cidades de Alagoas, no valor total de R$ 4,8 milhões. O Estado esteve na suposta sede da empresa, no conjunto popular Jarbas Maia de Omena, município de Messias. No local havia apenas um escritório e um vigia que mora num dos cômodos. Na casa de Santos, um dos proprietários, localizada uma rua atrás da suposta sede da Cicla, não havia ninguém. O imóvel, uma casa popular de 4 metros de frente por 6 de fundos, estava fechado.O levantamento dos contratos das três empresas é fruto de um trabalho feito pela pesquisadora Maria Aparecida de Oliveira, que há dois anos investiga a família Calheiros e outros políticos de Alagoas. O material recolhido em cartórios, prefeituras, Diário Oficial e outros será publicado em um livro.

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