Conselho fiscal apura aporte da Eletrobrás em obra no exterior

Estatal aprovou gastos de US$ 100 milhões em hidrelétrica na Nicarágua; obra é tocada por Queiroz Galvão, alvo da Lava Jato

FERNANDA NUNES / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2014 | 02h02

O presidente da Eletrobrás, José Carvalho da Costa Neto, recebeu a informação de que executivos da construtora Queiroz Galvão estavam sendo presos pela Polícia Federal, na Operação Lava Jato, no momento em que participava da reunião do conselho de administração que aprovou o investimento de US$ 100 milhões na construção de uma hidrelétrica na Nicarágua. O negócio terá a construtora como responsável pela obra.

Segundo uma fonte próxima ao comando da estatal, a decisão foi tomada sem a presença do presidente do conselho, o secretário do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, mas com o aval de todos os representantes da União na companhia. Zimmermann teria saído mais cedo da reunião para participar do conselho da Petrobrás, do qual também faz parte.

A decisão de aprovar o negócio foi questionada por acionistas minoritários da estatal e será alvo de investigação do conselho fiscal da Eletrobrás.

A prisão do diretor Othon Zanoide de Moraes Filho, do grupo Queiroz Galvão, e do ex-presidente da construtora Ildefonso Colares Filho ocorreu durante a 7.ª fase da Lava Jato, em 14 de novembro. A empresa foi citada pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa como integrante de um cartel e participante de esquema de pagamento de propina para levar contratos com a estatal, o que resultava no superfaturamento de projetos.

Segundo a fonte, a informação teria chegado por telefone a Costa Neto, que teria transmitido a notícia ao restante do conselho. Ainda assim, foi mantida a decisão de firmar acordo com a Queiroz Galvão. Um único conselheiro se absteve de se posicionar sobre o negócio. Todos os demais aprovaram, apesar da discussão sobre possível contaminação da Eletrobrás nos desdobramentos da Lava Jato.

A alegação para dar andamento ao negócio foi de que o governo da Nicarágua estaria pressionando para que o projeto saísse do papel. Na mesma reunião, segundo a fonte, no entanto, o conselho teve uma postura oposta em relação à Eletronorte, que foi proibida de fechar parceria com outra empresa investigada na Lava Jato, cujo nome não foi revelado, para participar de leilão de linha de transmissão.

Sem detalhes. Essa foi a primeira vez que o projeto na Nicarágua foi apresentado ao Conselho de Administração da Eletrobrás neste ano e não houve detalhamento do contrato. O projeto está sendo costurado pelos dois países desde 2010. Antes mesmo da sua aprovação pelo conselho, em 7 de novembro, o governo local promoveu um evento com a presença de executivos das empresas, da embaixada brasileira e imprensa para anunciar a construção da usina com a estatal brasileira.

Na Eletrobrás, o negócio é defendido como boa oportunidade de geração de receita, em um momento em que a empresa passa por restrições orçamentárias. Argumenta-se que o dinheiro não sairá do caixa da companhia, mas de financiamento, e que as negociações avançavam há quatro anos, muito antes da Lava Jato ser deflagrada.

Para acionistas minoritários, o envolvimento da Eletrobrás com essas empresas pode ter reflexo nos EUA, onde a empresa negocia ações em bolsa. A expectativa é de que a Securities and Exchange Commission, xerife do mercado financeiro norte-americano, passe a investigar a Eletrobrás como fez com a Petrobrás.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.