NILTON FUKUDA | ESTADÃO
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Conselheiros querem que Instituto Lula volte foco para o Brasil

A ideia seria trazer ações como seminários, palestras e debates, para temas centrados nas necessidades do Brasil e menos voltados para a América Latina e África.

Ana Fernandes e Ricardo Galhardo, O ESTADO DE S.PAULO

12 de fevereiro de 2016 | 19h12

SÃO PAULO - Conselheiros do Instituto Lula discutiram nesta sexta-feira, 12, uma mudança de foco na atuação da entidade. A ideia seria trazer ações como seminários, palestras e debates, para temas centrados nas necessidades do Brasil e menos voltados para a América Latina e África, como nos últimos anos.

"A gente viu a necessidade, por conta da conjuntura política e econômica, de a gente focar o nosso trabalho mais aqui no Brasil, discutindo alternativas, tentando pensar saídas para fazer avançar o nosso projeto de desenvolvimento para o País", disse o presidente do instituto, Paulo Okamotto, após deixar a reunião, que durou mais de quatro horas.

Segundo Okamotto, Lula, que esteve no encontro, também se posicionou de forma favorável a essa modificação. "A maioria das pessoas que falaram colocou a necessidade de termos uma atuação mais forte no Brasil e o presidente Lula também acha que é preciso, realmente, a gente pensar um pouco mais nisso, porque o modelo que a gente tinha pensado quatro anos atrás, com a mudança da conjuntura mundial, da América Latina, no Brasil, implica você também ter outra postura."

O presidente do Instituto Lula e outros membros do conselho concordaram na reunião sobre a importância nessa guinada de rumo, num momento de crise política, econômica e de saúde pública, com o surto de microcefalia associada ao zika vírus. "Sou um dos que sempre defendi defender o meu Brasil. Podemos continuar com o projeto lá fora, mas ver também o que podemos fazer aqui pra dentro", afirmou o conselheiro e ex-deputado Devanir Ribeiro (PT-SP). "Passou o tempo, agora vamos trazer pra dentro, repensar. Não podemos ficar parados, ainda mais num momento de crise econômica, política, de imprensa", reforçou.

A socióloga Maria Victoria Benevides, professora da Faculdade de Educação (FE) da Universidade de São Paulo (USP), uma das principais intelectuais petistas e que também integra o colegiado do instituto, também disse ter feito a defesa da proposta. Maria Victoria disse ter sugerido uma aproximação com universidades, associações profissionais, como Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sociedade civil e juventude.

"Não é apenas para enfrentar a crise política e econômica atual, mas para ter uma projeção para o futuro. Falei, especificamente, de problemas envolvendo direitos sociais e, principalmente, da juventude, que tem dado sinais de novas mobilizações", complementou.

De acordo com Okamotto, o instituto deve promover novos encontros para detalhar esse projeto de novo direcionamento das atividades, possivelmente até com impacto sobre a estruturação e cargos de diretoria da instituição. Ele afirmou que, por ora, nada está definido. "Estou tentando ficar (na presidência do instituto), mas não sei se vai ter condição", brincou.

Instituto Cidadania. Os conselheiros traçaram paralelo com as ações do Instituto Cidadania, ligado a Lula antes de ele chegar à Presidência da República. O Instituto Cidadania nasceu do então chamado "governo paralelo", que o ex-presidente tinha formado depois de perder a eleição para o ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), em 1989. A entidade formulava programas em diversas áreas, como moradia e direitos humanos.

"Temos que trazer pra dentro do Brasil (o foco) e pensar o que podemos fazer, como no Instituto da Cidadania, que fizemos as caravanas, o Fome Zero, juventude, coisas que o Itamar (Franco) até aproveitou", disse o conselheiro Ribeiro. "Fui da direção do Instituto Cidadania e acredito que a retomada dos estudos e projetos de então, agora no Instituto Lula é uma boa estratégia", afirmou a socióloga Maria Victoria.

Os conselheiros, no entanto, fizeram questão de destacar que a ideia é contribuir com a administração Dilma Rousseff e não de concorrer com qualquer forma de governo paralelo. "Agora é diferente, a conjuntura é outra", disse Ribeiro. "Somos do governo, estamos no governo, nosso papel é tentar contribuir para que o governo seja mais eficiente, tenha mais resultados", afirmou o presidente do instituto. "A presidente Dilma é ligada ao Instituto Lula por ser do mesmo partido (que o ex-presidente), embora não tenha função no instituto, então não tem o menor sentido falar em governo paralelo", afirmou a socióloga.

Polêmica evitada. A discussão em torno da defesa de Lula no caso do sítio de Atibaia, no interior de São Paulo, investigado na Operação Lava Jato, foi deixada de lado. Havia uma cobrança de bastidor por parte de petistas e de interlocutores do Palácio do Planalto para saber do ex-presidente, mais claramente, qual será a estratégia de defesa.

A avaliação é que a resposta de Lula tem sido errática e amadora, deixando fragilizada a defesa que petistas e a própria Dilma podem fazer dele. Apesar da pressão, Lula vedou o assunto na reunião desta manhã e início de tarde. Ele disse que não tratava de "questões pessoais" em encontros do instituto.

O sítio, usado por Lula, foi reformado. A Lava Jato investiga se recursos para a reforma teriam sido repassados por empreiteiras envolvidas no esquema de desvios da Petrobrás. O ex-presidente deixou a reunião para um encontro com Dilma, que veio a São Paulo.

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