Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Conjuntura política impede minha presença no governo', diz Cid após demissão

Ex-ministro admitiu que suas declarações, ao chamar parlamentares de 'achacadores', criam dificuldades para a base do governo e saiu em defesa da presidente Dilma

Tânia Monteiro e Rafael Moraes Moura, O Estado de S. Paulo

18 de março de 2015 | 19h41

Brasília - Depois de ter batido boca no Congresso com o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, e outros parlamentares, o ministro da Educação, Cid Gomes, foi para o Palácio do Planalto se reunir com a presidente Dilma Rousseff, por menos de 15 minutos, para entregar seu pedido de demissão, aceito imediatamente por ela. "A conjuntura política impede minha presença no governo", declarou Cid Gomes, na saída do Planalto, após se reunir com a presidente Dilma e dizer que lamentava estar saindo do cargo. "A minha declaração e mais do que ela, a forma como eu coloquei a minha posição na Câmara, é óbvio que cria dificuldades para a base do governo e portanto eu não quis criar nenhum constrangimento", prosseguiu o ministro, lembrando que seu pedido de demissão era " em caráter irrevogável".

Dilma, que já estava incomodada com a potencialização dada por Cid Gomes à crise política, ao dizer que existiam de 300 a 400 achacadores no Congresso. Assim que tomou conhecimento e viu as declarações do ministro da Educação no plenário da Câmara, Dilma avisou aos seus auxiliares diretos que ele não tinha mais condições de ficar no cargo e que já havia decidido demiti-lo. Com isso, Dilma, mais uma vez pressionada pelos fatos, foi atropelada com o início da reforma de seu ministério, antes de completar três meses de governo, que ela protelava em desencadear apesar dos inúmeros apelos. As declarações de Cid Gomes surpreenderam a presidente Dilma e os ministros do Planalto.

Em sua entrevista, na saída do Palácio, Cid Gomes defendeu a presidente Dilma e disse que a pressão que os partidos estão fazendo sobre ela é porque ela está combatendo à corrupção que "boa parte dos partidos quer (manter)". Questionado se a presidente vai conseguir superar esta crise, o ministro disse que sim e atirou: 

"O que a Dilma está fazendo é limpar o governo de corrupção que aconteceu no passado. Quem demitiu o Paulo Roberto, o Duque (Renato Duque, ambos ex-diretores da Petrobrás) foi ela, há muito tempo. Essa crise que exponencializa a corrupção é uma crise anterior a ela. Ela, ao contrário, como é séria, está limpando e não está permitindo isso (a corrupção) e isso fragiliza sua relação com boa parte dos partidos que querem isso (corrupção)". 

Em seguida, o ministro Cid emendou, atacando os partidos da base.  "Você viu no PP quantos deputados recebiam mensalidade de um diretor da Petrobrás? Isso era a base do governo e ela está mudando isso e é óbvio que isso cria desconforto", atacou.

Cid Gomes comentou ainda que a audiência foi rápida e que não havia o que discutir. "A situação em que eu me encontrei sendo convocado pela Câmara e questionado de declarações que tinha feito em local reservado, não poderia ter agido diferentemente naquilo que eu disse", comentou ele, acrescentando que buscou "relação respeitosa (com o Congresso)", mas ressalva que deu a sua opinião.

Cid Gomes declarou ainda que disse para a presidente Dilma que "lamentava" muito, que "tinha muito prazer" em ter trabalhado com ela, que "acreditava nela e confiava nela e continuo confiando". Reconheceu, no entanto que "agora, a situação, a minha presença no Ministério ficou em situação de contraponto, de indisposição com boa parte da base que apoia seu governo". Cid Gomes encerrou a entrevista dizendo que ia "para casa".

Em nota oficial, o Palácio do Planalto informou que "o ministro da Educação, Cid Gomes, entregou nesta quarta-feira, 18 de março, seu pedido de demissão à presidenta Dilma Rousseff.". Acrescenta ainda que a presidente Dilma "agradeceu a dedicação dele à frente da pasta".

Passagem rápida. Em sua passagem de menos de três meses pelo Ministério da Educação (MEC), Cid Gomes prometeu implantar em dois anos a reforma do ensino médio e adotar uma versão eletrônica da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a ser realizada mais de uma vez por ano. 

Cid também acumulou uma série de atritos com o setor privado, depois de o MEC dificultar o acesso ao crédito estudantil do Fies e mudar a forma de pagamento das instituições. Em fevereiro, o MEC cedeu às pressões e autorizou um reajuste de até 6,4% nas matrículas.

De todos os ministros que passaram pelo governo Dilma Rousseff, Cid Gomes foi o que passou menos tempo à frente do cargo. Ele foi o primeiro não petista a assumir a Educação desde que o PT assumiu o comando do Palácio do Planalto

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