Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Conjuntura externa torna trabalho da Lava Jato 'muito mais difícil', diz Deltan

Segundo ele, há decisões em curso no Judiciário, Supremo e Legislativo que impactam a continuidade e os resultados da operação

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 21h21

Na primeira entrevista após anunciar sua saída da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol disse nesta terça-feira, 1º, que a conjuntura externa torna o trabalho da Operação Lava Jato "muito mais difícil". Recentemente, as forças-tarefas foram alvo de críticas do procurador-geral da República, Augusto Aras, que falou da necessidade de "correção de rumo". A Operação também sofreu derrotas no Supremo Tribunal Federal (STF), a mais recente nesta terça, com decisão contrária à ação penal envolvendo o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Vital do Rêgo.

"Dentro (da Lava Jato) você tem simplesmente a substituição de um procurador", disse em entrevista à CNN. "(Fora da Operaçã0) você tem toda uma conjuntura externa que torna o nosso trabalho muito mais difícil. Torna os resultados das investigações e processos muito mais difíceis."

O agora ex-coordenador citou a decisão do STF que suspendeu a ação penal contra Vital do Rêgo, um dia depois de ele ser colocado no banco dos réus pela Operação. "Não consigo imaginar qual a razão (para suspender), porque foi um processo regular em relação a fatos passados não acobertados por foro privilegiado", afirmou. O procurador disse que há várias decisões em curso no Judiciário, no STF e no Legislativo que acabam impactando a continuidade e os resultados do trabalho da Lava Jato. 

Carreira política

Questionado se tem pretensões políticas em sua carreira, Deltan disse que a ideia não está, hoje, em sua perspectiva de planejamento ou reflexão. "Eu não descarto, no futuro, e esse é o principal plano hoje, seguir trabalhando como procurador da República."

Deltan deixa a Operação após seis anos no comando da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. A saída foi confirmada nesta terça, em vídeo publicado no Twitter. Segundo ele, a decisão se deve ao fato de existirem indicações de um problema de desenvolvimento em sua filha de um ano e dez meses, o que demanda tratamentos e terapias. 

“Depois de anos de dedicação intensa à Lava Jato eu acredito que agora é hora de eu me dedicar de modo especial para a minha família. Vou continuar trabalhando como procurador, mas aquelas horas extras que investi em noites, finais de semana e feriados eu vou precisar agora focar na minha família", disse em vídeo na rede social.

Sua saída se dá em um contexto de expectativa sobre a continuidade da força-tarefa. No último dia 26, Deltan pediu a Aras a prorrogação dos trabalhos no Paraná por um ano. O chefe do Ministério Público, no entanto, ainda não deu seu aval, e a Operação acabou prorrogada por uma decisão liminar da subprocuradora Maria Caetana Cintra dos Santos, do Conselho Superior do Ministério Público Federal. 

Aras

Na entrevista à CNN, o procurador não quis comentar o trabalho de Augusto Aras à frente do Ministério Público, mas defendeu a independência da instituição. "Não estou em posição de avaliar o trabalho de um colega que hoje lidera a nossa instituição. O que eu tenho sempre a fazer é defender que o procurador-geral, assim como os todos os membros do MP, desempenhe sempre sua função de modo independente, de acordo com a Constituição e as leis."

O procurador-geral da República tem disparado uma série de críticas à Operação, especialmente aos membros da força-tarefa no Paraná. Em julho, ele afirmou ser a “ hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure” e falou em “caixa de segredos” e busca por transparência no MPF. 

Sucessor

Deltan afirmou que fez a escolha de seu substituto, o procurador Alessandro Fernandes Oliveira. "Eu sondei algumas pessoas para verificar se aceitariam assumir a Lava Jato. O procurador da república Alessandro indicou que poderia ter disponibilidade para isso." Em seguida, segundo ele, foi feita uma consulta formal a todos os outros membros de Curitiba, mas ninguém manifestou interesse. Segundo Deltan, Oliveira é um procurador competente e apoiador da Lava Jato ao longo da história. "Certamente ele vai honrar muito a quipe que vai passar a integrar."

Oliveira fazia parte do grupo de trabalho da Lava Jato na PGR e disse não ser aliado de Aras ou da subprocuradora-geral Lindôra Araújo, que até esta terça-feira, 1º, era sua chefe. “Sou aliado da promoção de justiça, da independência funcional, daquilo que seja o melhor para o Ministério Público e para o Brasil”, disse.

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